Nina e a neurose obsessiva: uma leitura freudiana de “O Cisne Negro”
Nina e a Neurose Obsessiva
O Cisne Negro é, para mim, um dos filmes psicologicamente mais ricos do cinema contemporâneo, e também um dos mais perturbadores. O filme acompanha Nina Sayers, bailarina da companhia de balé de Nova York, que conquista o papel principal de O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, no qual precisa encarnar simultaneamente o cisne branco e o cisne negro. A partir daí, o filme inteiro é a desintegração psíquica dessa personagem até sua autodestruição. O que Aronofsky entrega, no fundo, é o quadro de uma psique em colapso, e é desse quadro que quero partir.
A psicanálise sempre se interessado por esse tipo de material. Desde o início, literatura, mitologia, artes plásticas e, depois, o cinema foram tratados como territórios em que os processos inconscientes que a clínica observa aparecem de outra forma. Freud analisou personagens literários para ilustrar suas teorias, como no estudo sobre Gradiva, de Jensen, e em suas reflexões sobre Hamlet e Édipo Rei. O cinema, com sua capacidade de externalizar estados interiores e de materializar visualmente aquilo que a linguagem verbal apenas aproxima, me parece um campo particularmente fértil para essa abordagem.
A hipótese que quero defender aqui é que Nina Sayers tem uma organização psíquica que se enquadra no que Freud chamou de neurose obsessiva. Estou pensando especificamente em mecanismos defensivos como isolamento, anulação retroativa e formação reativa, e em traços estruturais como a compulsão à repetição, o perfeccionismo paralisante e, sobretudo, uma severa tirania do supereu. A neurose obsessiva se manifesta por uma predominância do pensamento sobre o afeto, por rituais de controle, por uma relação particularmente violenta do sujeito consigo mesmo e, principalmente, pela ambivalência. Antes de avançar, uma ressalva metodológica óbvia mas necessária: Nina é uma personagem ficcional, e o filme é uma obra de arte, não um caso clínico. A análise que conduzo é interpretativa e hermenêutica, não diagnóstica. O que tento mostrar é que a narrativa do filme está estruturada segundo uma lógica que corresponde à lógica psicanalítica da neurose obsessiva.
Para chegar lá, preciso primeiro sentar em alguns fundamentos teóricos. A neurose obsessiva ocupa lugar central na clínica psicanalítica. Os estudos do Homem dos Ratos e do Homem dos Lobos são, ainda hoje, os documentos clínicos fundamentais para sua compreensão. O obsessivo é, por excelência, o sujeito da dúvida: não sabe se ama ou odeia, se deve agir ou abster-se. E essa dúvida não é intelectual, é afetiva. Parece interminável porque sua função é exatamente essa: manter o sujeito suspenso entre polos opostos, impedir que o desejo se atualize, impedir que o conflito chegue a uma resolução. Estruturalmente, a neurose obsessiva é marcada pela regressão ao estágio anal-sádico do desenvolvimento libidinal. Nesse estágio, o impulso predominante é a pulsão sádica, o desejo de controlar, dominar e destruir o objeto, que entra em conflito com os impulsos amorosos dirigidos ao mesmo objeto. Daí resulta a ambivalência afetiva característica: amor e ódio intensos voltados ao mesmo objeto, e um eu que não consegue reconciliá-los.
Os mecanismos defensivos que predominam nessa estrutura são importantes para o que vem depois. O isolamento consiste em separar uma representação de seu contexto afetivo e de suas conexões associativas, tornando-a inofensiva ao esvaziá-la de sentido; o sujeito "pensa" algo perturbador sem "sentir" o afeto que lhe caberia. A anulação retroativa busca desfazer simbolicamente uma ação ou pensamento mediante um ato contrário, naqueles rituais de "desfazer" que os obsessivos frequentemente executam. A formação reativa transforma um impulso inaceitável em seu oposto: o ódio em amor excessivo, a crueldade em gentileza compulsiva, a sujeira em limpeza obsessiva. E a intelectualização desloca o conflito afetivo para o plano do pensamento, tornando-o menos ameaçador. O controle é central nisso tudo. O obsessivo sente que, se perder o controle sobre si mesmo, sobre seus pensamentos, sobre o ambiente, algo catastrófico vai acontecer: a eclosão do desejo proibido, a punição pelo supereu, a desintegração do eu. Daí a necessidade compulsiva de ordem, de rotinas fixas, de rituais que garantam a ilusão de domínio sobre o caos pulsional interior. Quando esses mecanismos falham, a angústia irrompe com uma intensidade avassaladora.
Sobre o supereu, vale a pena demorar um pouco. Ele herda a autoridade das figuras parentais, internalizando seus comandos, proibições e ideais. Mas não é simples cópia das exigências parentais reais. É frequentemente muito mais severo do que os pais efetivamente foram, porque incorpora a própria agressividade do sujeito. O impulso sádico que se dirigia inicialmente contra os pais é internalizado e volta-se contra o próprio eu. No obsessivo, esse mecanismo atinge intensidade particular. Freud observou que, quanto mais virtuoso o obsessivo tenta ser, mais cruel se torna seu supereu, porque cada renúncia pulsional, em vez de satisfazer a exigência superegoica, alimenta-a com nova energia. O supereu do obsessivo é insaciável: nenhuma perfeição é suficiente, nenhum sacrifício é bastante, nenhuma autopunição é definitiva. O eu fica preso num ciclo de exigências impossíveis e fracassos inevitáveis, com cada fracasso gerando nova culpa e nova autopunição. O ideal do eu, aspecto do supereu correspondente ao polo aspiracional, ao modelo de perfeição que o sujeito deve alcançar, tem papel crucial nessa psicopatologia. O obsessivo se estrutura em torno de um ideal de perfeição absoluta, inatingível por definição, mas cuja persecução é compulsória. Esse ideal é, ao mesmo tempo, motor e armadilha: impulsiona realizações extraordinárias, mas torna qualquer realização insuficiente, qualquer prazer culpável, qualquer imperfeição inadmissível.
A culpa inconsciente, que Freud chamou de necessidade de punição, é uma das manifestações clínicas mais características da neurose obsessiva. O sujeito não experimenta necessariamente a culpa como tal: ela se manifesta indiretamente, por comportamentos de autossabotagem, doenças físicas, atos que produzem sofrimento ou incapacidade de desfrutar do sucesso. Freud descreveu esses casos como "os que fracassam quando o êxito está ao alcance", revelando essa lógica paradoxal segundo a qual o sujeito, ao se aproximar do objeto desejado, provoca sua própria ruína. E é dentro dessa lógica que Nina se move o tempo todo.
O Cisne Negro, dirigido por Darren Aronofsky e lançado em 2010, foi protagonizado por Natalie Portman, que recebeu o Oscar de Melhor Atriz pelo papel. A narrativa acompanha Nina, jovem bailarina da companhia de balé de Nova York, que vive sob a pressão permanente da perfeição técnica e sob a sombra dominadora de sua mãe, Erica, ex-bailarina que não realizou plenamente sua carreira e projeta na filha as ambições não realizadas. Quando o diretor artístico Thomas Leroy decide montar uma nova versão de O Lago dos Cisnes, Nina é escolhida para o papel principal, no qual deve encarnar tanto o cisne branco (Odette) quanto o cisne negro (Odile). A exigência de encarnar o cisne negro, símbolo da sedução, da sensualidade, da impulsividade e da transgressão, representa para Nina um desafio que não é apenas técnico, é existencial. O cisne branco, com seus atributos de pureza e perfeição controlada, corresponde perfeitamente à imagem que Nina tem de si mesma e que é sustentada por seu supereu. O cisne negro, ao contrário, encarna tudo o que Nina recalcou: sexualidade, agressividade, espontaneidade, prazer sem culpa. A jornada do filme é a jornada de Nina em direção ao contato com o cisne negro interior, com o inconsciente recalcado, e os efeitos devastadores desse confronto sobre uma psique organizada obsessivamente em torno do controle e da perfeição.
Uma das dimensões mais interessantes do filme como objeto de análise psicanalítica está na sua utilização da linguagem cinematográfica para representar estados psíquicos interiores. Aronofsky recorre sistematicamente a recursos formais que correspondem, no plano da imagem, aos mecanismos que Freud descreveu no plano do inconsciente: a condensação, o deslocamento, a representação pelo contrário, a sobredeterminação. O uso de espelhos ao longo do filme não é meramente decorativo. Os espelhos representam a identidade, a relação do sujeito com sua própria imagem especular. Para Nina, o espelho é também o espaço de vigilância superegoica: ela se observa dançar, se julga, se acha insuficiente. É o lugar onde o duplo ameaçador emerge. A imagem que lhe devolve o olhar não é apenas a sua, mas a de uma outra que ela teme e deseja ser. A trilha sonora, baseada em trechos do balé de Tchaikovsky progressivamente distorcidos, acompanha a deterioração psíquica de Nina e expressa musicalmente a angústia que cresce à medida que as defesas obsessivas vão se tornando insuficientes. A câmera, frequentemente na mão e em primeiro plano sobre o rosto de Nina, cria uma proximidade sufocante que mimetiza a invasão do espaço psíquico pela angústia. A câmera não deixa Nina respirar, do mesmo modo como seu supereu não lhe concede descanso. E há um recurso particularmente engenhoso: no filme, Nina mantém um olhar infantil e inocente, mas em vários momentos aparece a própria Nina com um olhar adulto e sedutor, em visões que ela tem ao longo da narrativa. É o mesmo olhar que mais tarde vai aparecer quando ela dançar o cisne negro.
A frase "eu só quero ser perfeita", que Nina diz ao diretor artístico numa cena curta, quase de passagem, me parece a chave de tudo. Porque é uma frase de neurótica obsessiva, não de uma psicótica. A psicose, em geral, não fala essa língua. O ideal de perfeição, a culpa, o medo de falhar, tudo isso pertence à lógica da neurose. A psicose envolve retirada maciça da libido da realidade externa e reconstrução delirante sistemática: o sujeito rompe com a realidade compartilhada e a substitui por uma construção delirante coerente. Em Nina, o investimento na realidade externa permanece. A estreia, o julgamento do diretor, o reconhecimento da plateia, tudo isso continua central. Não há sistema delirante organizado, nem substituição consistente da realidade. As experiências alucinatórias são episódicas e surgem sob pressão máxima da angústia. O conflito permanece intrapsíquico, entre eu e supereu. Nina vive dentro daquela frase, e é por isso que ela me parece muito mais próxima da neurose obsessiva do que de uma desorganização psicótica.
A busca pela perfeição, em Nina, não é só ambição artística. Tem alguma coisa de defesa também. Quando ela diz que só quer ser perfeita, eu não escuto apenas uma bailarina disciplinada, escuto uma sentença superegoica. Ser perfeita, para ela, parece significar não sair do lugar que lhe foi destinado: não desejar demais, não se descontrolar, não se misturar ao corpo, não se deixar atravessar por aquilo que nela é sexual, agressivo ou ambivalente. A perfeição funciona quase como uma técnica de contenção. Enquanto ela busca ser impecável, mantém o desejo sob controle, ou pelo menos acredita manter. E o desejo, aqui, é tudo aquilo que ela não admite nem para si mesma: sexualidade, agressividade, rivalidade, vontade de ultrapassar a mãe e as outras bailarinas. Não por acaso ela se identifica tão fortemente com o cisne branco: puro, infantil, dócil, impecável. Essa identificação é, ela mesma, uma defesa. Mas para dançar o papel principal, ela precisa também encarnar o cisne negro, sensual, agressivo, sedutor, livre, menos controlado. Esse "lado negro" não é uma personagem externa que ela vai aprender a interpretar. É algo dela, recalcado. O papel pede exatamente o que ela passou a vida tentando manter trancado.
Lily, que Nina percebe como sua rival, funciona no filme como representação externa do inconsciente de Nina. Ela personifica tudo o que Nina recalcou: a espontaneidade, a sexualidade aberta, o prazer sem culpa, a agressividade sem remorso. O progressivo apagamento dos limites entre Nina e Lily, que culmina na cena em que Nina imagina matar Lily apenas para descobrir que atacou a si mesma, representa, em linguagem cinematográfica, o processo de irrupção do recalcado.
O traço mais imediatamente visível na caracterização de Nina é o perfeccionismo paralisante. Desde as primeiras cenas, ela aparece como bailarina tecnicamente impecável, cuja dedicação à dança beira a automortificação. Pratica até o esgotamento físico, cuida dos pés com uma meticulosidade que logo se revela compulsiva, organiza o quarto com uma ordem que exclui qualquer elemento de acaso. Esse perfeccionismo, na minha leitura, não é virtude levada ao extremo: é sintoma. É uma formação reativa contra os impulsos caóticos do id. A necessidade compulsiva de ordem funciona como dique erguido contra a ameaça da desorganização pulsional interior. Quanto maior a força dos impulsos recalcados, mais intenso o perfeccionismo defensivo. A bailarina perfeita é a máscara que Nina usa para não ter de ser a mulher com desejos. Num primeiro momento, o amor de Nina pela dança poderia ser pensado como uma forma de sublimação. Mas seria uma sublimação muito rigidificada. Estou mais inclinado a pensar que há sim a sublimação, mas a neurose obsessiva a usa para se manifestar.
Os rituais de Nina são descritos com precisão pelo filme: a preparação das sapatilhas de ponta, a rotina de aquecimento, os cuidados com o corpo. Tudo obedece a uma sequência prescrita que não tolera variação. Freud, comparando práticas religiosas e rituais obsessivos, observou que estes funcionam como cerimônias sagradas. Sua função não é utilitária, é protetora. O ritual protege o sujeito da angústia que eclodiria caso ele não o realizasse; é uma forma de "afastar o mal", e o mal, aqui, é o próprio desejo inconsciente. A cena em que Thomas Leroy diz a Nina que ela é tecnicamente perfeita mas carece de paixão, que pode dançar o cisne branco mas não o cisne negro, é clinicamente reveladora. Thomas localiza precisamente o problema dela: o isolamento afetivo. Nina sabe dançar, ou seja, executar os movimentos com precisão técnica, mas não consegue sentir, porque sentir implicaria contatar os afetos recalcados que a ameaçam. O eu de Nina conseguiu isolar o fazer do ser, a técnica do desejo.
A progressão do perfeccionismo ao longo do filme é também a progressão da descompensação obsessiva. À medida que as demandas sobre Nina se tornam mais intensas, a pressão do espetáculo, a competição com Lily, o despertar sexual, os rituais de controle se intensificam proporcionalmente, até deixarem de ser suficientes para conter a angústia. É exatamente nesse momento que emergem os sintomas mais graves: as alucinações, a automutilação, a desorientação identitária.
Quero dedicar um momento ao isolamento social de Nina, que entendo como uma defesa típica de uma organização obsessiva. Não como traço de personalidade no sentido de timidez, mas como efeito de conflitos psíquicos. Submetida a um supereu severo e a um ideal de perfeição rígido, Nina evita o contato com as colegas para não se defrontar com a ambivalência afetiva que as relações suscitam, especialmente a coexistência de admiração, rivalidade e impulsos agressivos que lhe são intoleráveis. Esse afastamento permite manter sob controle tais conteúdos recalcados, reduzindo a angústia e preservando uma ilusão de domínio sobre si mesma. Ao mesmo tempo, protege Nina da imprevisibilidade do outro e sustenta o vínculo simbiótico com a mãe, que dificulta sua inserção em laços horizontais e autônomos. O isolamento, assim, funciona como uma defesa que limita o campo relacional de Nina justamente para evitar o colapso das barreiras que mantêm separados seus impulsos e afetos. E aqui há uma articulação que me parece importante: a exclusão do outro favorece a intensificação de um funcionamento psíquico fechado sobre si mesmo, no qual o recalcado encontra menos mediações simbólicas para ser elaborado. Ao restringir o contato com o exterior, Nina se vê cada vez mais entregue a suas próprias fantasias e excitações pulsionais. Os conteúdos ligados à sexualidade, à agressividade e à perda de controle, exatamente os que o cisne negro exige, retornam então de forma não simbolizada, frequentemente como vivências corporais intensas e fenômenos alucinatórios. O que inicialmente operava como defesa obsessiva torna-se também a condição de possibilidade para sua falência. Ao impedir a elaboração psíquica mediada pelo outro, o isolamento favorece a irrupção direta do recalcado no corpo e na percepção, conduzindo Nina de uma posição marcada pela rigidez e pelo controle ao cisne negro, àquela progressiva desorganização em que o desejo, a pulsão e a alteridade irrompem de maneira avassaladora.
A relação de Nina com Erica constitui o núcleo patogênico mais evidente de sua psicopatologia. Erica é uma personagem complexa e perturbadora: ex-bailarina que abandonou a carreira quando engravidou de Nina, projeta na filha seus ideais narcísicos não realizados, tratando-a simultaneamente como extensão de si mesma e como propriedade. A identificação com a mãe parece assumir a forma mais primitiva e totalizante: Nina não tem identidade separada de Erica, é um prolongamento da psique materna. Essa fusão é mantida no registro da identificação primária e das dificuldades da elaboração do vínculo pré-edípico. As evidências dessa fusão identitária são numerosas. O quarto de Nina é o quarto de uma criança, não de uma adulta: bonecas e ursinhos nas prateleiras, papel de parede cor-de-rosa, roupa infantil. Erica escolhe as roupas de Nina, controla seu sono, prepara sua comida, decide quando ela deve dormir. A infantilização não é acidental. Serve à função de manter Nina em estado de dependência, impedindo seu desenvolvimento psicossexual e assegurando que ela permaneça "pura", dessexualizada e sob controle materno.
Mas a relação com a mãe não é apenas de fusão e dependência. É atravessada por uma hostilidade surda e recalcada que Nina não consegue reconhecer conscientemente. Erica é, ao mesmo tempo, a mãe amada e a inimiga que sufoca, a aliada que protege e a carcereira que aprisiona. Nina não tolera o ódio que sente pela mãe, porque esse ódio entra em conflito direto com a imagem idealizada de filha devotada que ela mantém de si mesma. Por isso é recalcado com violência, e retorna de forma sintomática. No caso de Nina, o conflito pré-edípico nunca foi elaborado. Ela permanece presa numa relação com Erica que não lhe permite individuação. A cena em que Nina é escolhida para dançar a Rainha do Lago e, ao chegar em casa para comemorar, é presenteada pela mãe com um bolo, do qual Erica corta uma fatia exageradamente grande, sugere a intenção de romper a dieta rigorosa que toda bailarina precisa manter. E há a cena do dia da estreia, em que Nina desperta tardiamente porque Erica não a acordou, percebe o atraso, tenta sair do quarto e descobre que a porta foi trancada e a fechadura arrancada pela mãe. Erica insiste para que a filha não vá, apelando para que ela permaneça em sua posição infantil. Essa cena demonstra que Erica não suporta o sucesso autônomo de Nina, porque ele ameaça a fusão narcísica que sustenta sua própria identidade.
Quero registrar um detalhe que me marcou: os quadros que Erica pinta. Em vários momentos do filme, a câmera mostra os quadros com o rosto de Nina, pintados pela mãe. E em uma cena, esses rostos parecem se mexer, sussurram, olham para Nina. É a mãe literalmente na parede, vigiando. A alucinação aqui, porque já é uma alucinação, não vem do nada. Ela vem do lugar exato onde Nina não consegue dizer "minha mãe me sufoca". Onde a frase falta, a parede fala.
A relação com Beth Macintyre também é reveladora. Beth figura como ideal e como ameaça, imagem gloriosa e destino aterrador. Nina a admira, mas também a substitui; identifica-se com ela, mas teme tornar-se ela. Reencontra-se aí a ambivalência característica: o mesmo objeto concentra amor, rivalidade, inveja e hostilidade. A culpa que se segue não decorre somente do desejo manifesto de ocupar o lugar da outra, mas do ódio implícito que acompanha toda rivalidade intensa. Em Nina, a idealização de Beth convive com uma excitação silenciosa diante de sua queda, o que reforça o circuito de culpa e autopunição. Ao roubar objetos do camarim de Beth, Nina tenta se aproximar desse ideal, tomando emprestado, por assim dizer, o poder de sedução da outra. Ao usar o batom vermelho de Beth para seduzir Thomas, Nina tenta disfarçar seu próprio poder de sedução, porque, sendo o batom de Beth, é como se Nina não tivesse desejo sexual, apenas tomou emprestado. Quando Nina devolve os itens roubados a Beth no hospital, vê Beth se mutilando com a lixa de unha e, logo em seguida, no elevador, encontra a lixa ensanguentada na própria mão. Sou levado a supor que ela mesma foi responsável pelos machucados, mas que, impossibilitada de reconhecer seu ódio, alucina que a própria Beth os produz.
O supereu de Nina é talvez o elemento mais representado no filme. Ele se manifesta por autocrítica implacável, incapacidade de desfrutar do prazer, comportamentos de autopunição e necessidade de fracasso como forma de expiação da culpa inconsciente. Sua origem é identificável: é a internalização das exigências de Erica, amplificadas e tornadas cruéis pela própria agressividade de Nina, que se volta contra si mesma. Erica funciona como um supereu externalizado. Critica, julga, proíbe, mas também, e isso é crucial, protege e cuida. A cena em que Thomas Leroy se aproxima sexualmente de Nina e ela, em vez de resistir, sente culpa e vergonha, culpa não pelo assédio que sofre, mas pelo desejo que o contato desperta, ilustra com precisão a lógica do supereu punitivo. O sujeito não pune o transgressor externo, pune a si mesmo por ter desejado. O desejo é vivido como crime, e o crime exige expiação. A autopunição, para Nina, não é ato consciente e deliberado: é compulsória, um imperativo vindo de dentro que não admite recusa.
Os episódios de automutilação, os arranhões nas costas, a manipulação compulsiva da pele, devem ser compreendidos como expressões dessa autopunição superegoica. Quando a culpa encontra dificuldade de ligar-se a uma representação consciente, o sofrimento físico opera como realização substitutiva da expiação. A personagem se arranha, sangra, se vigia e sofre como se necessitasse de uma prova concreta do conflito que a habita. Mas há também, nesses atos, uma dimensão paradoxal: a dor infligida ao próprio corpo produz uma satisfação masoquista que alivia temporariamente a tensão da culpa inconsciente. É a dinâmica do masoquismo moral, em que a pulsão de morte encontra satisfação pela via do sofrimento que o supereu inflige ao eu.
A ambivalência afetiva, a coexistência de amor e ódio dirigidos ao mesmo objeto, estrutura todas as relações significativas de Nina. Em relação a Lily, assume a forma de fascínio e terror. Lily encarna o que Nina deseja ser, livre, sensual, espontânea, mas também o que mais teme: a perda do controle, a eclosão do desejo, a transgressão da lei superegoica. A relação entre as duas é narcísica. Lily não é objeto separado, é espelho onde Nina projeta seu próprio inconsciente recalcado. O ódio recalcado de Nina, aliás, é a chave para compreender seus episódios alucinatórios mais violentos. Quando Nina vê Lily como ameaça, como rival que deseja tomar seu lugar, está projetando para fora uma ameaça que vem de dentro, o medo de seus próprios impulsos destrutivos. A cena em que Nina estrangula Lily e logo se revela que estrangulou a si mesma ilustra essa dinâmica. A agressividade dirigida ao outro retorna sobre ela mesma. O impulso homicida que não consegue reconhecer como seu se torna suicida. Essa lógica corresponde ao que Freud descreveu: quando o amor ao objeto se mistura ao ódio, e o objeto é perdido ou ameaçador, o ódio volta-se contra o eu identificado com o objeto, como é o caso na melancolia.
A ambivalência de Nina em relação a Thomas Leroy é igualmente reveladora. Thomas é simultaneamente objeto de desejo, pai sedutor, figura de autoridade que poderia liberar Nina de sua prisão obsessiva, e agente persecutório que exige o impossível, que nunca está satisfeito, que representa uma nova versão do supereu tirânico. Nina oscila entre a submissão e o desejo de destruí-lo, entre adoração e ressentimento, sem conseguir integrar esses polos numa relação objetal mais madura.
A sexualidade de Nina é um dos temas centrais do filme. No início da narrativa, Nina é uma adulta aparentemente assexuada. A infantilização pelo ambiente doméstico e a dedicação exclusiva à dança parecem ter suprimido qualquer expressão da vida sexual. Ela não tem parceiros, não demonstra interesse erótico, reage com constrangimento a qualquer estimulação sexual. Mas essa assexualidade aparente não é ausência de desejo. É resultado de um recalque sistemático. A pulsão sexual está presente, mantida à distância da consciência por mecanismos defensivos eficazes, até que as circunstâncias do filme começam a torná-los insuficientes. O encontro com Thomas, com Lily, e sobretudo com o papel do cisne negro, que exige a expressão da sensualidade, pressiona o recalque a partir de fora, tornando-o progressivamente mais difícil de sustentar.
A cena em que Nina faz uso de ecstasy pode ser compreendida não como um elemento isolado ou meramente comportamental, mas como um movimento na economia psíquica da personagem, no qual se evidencia um afrouxamento das instâncias de controle que até então organizavam rigidamente seu funcionamento. Ao usar a droga e ter as defesas enfraquecidas, Nina se torna sensual, sexual, e fantasia se relacionar sexualmente com Lily. Se sua estrutura fosse psicótica, poder-se-ia supor que o uso da substância favoreceria uma ruptura mais consistente com a realidade. Até esse ponto, Nina se apresenta submetida a um supereu severo, marcado por exigências de perfeição, pureza e controle, fortemente articuladas à relação simbiótica com a mãe e à internalização de um ideal do eu inatingível. Nesse contexto, o uso da substância pode ser interpretado como um fator que momentaneamente enfraquece a censura psíquica, permitindo a emergência de conteúdos recalcados que, até então, permaneciam sob forte repressão. Esse afrouxamento das defesas aproxima o funcionamento psíquico de Nina de um regime mais primário, com intensificação das experiências sensoriais, diminuição das fronteiras entre o eu e o outro, maior permeabilidade entre fantasia e realidade. Nesse estado, a sexualidade, antes rigidamente contida, encontra vias de expressão mais diretas, e pode ser compreendida não como a revelação de uma identidade fixa, mas como manifestação da natureza polimorfa da libido, cuja plasticidade se evidencia quando as barreiras do recalque são enfraquecidas. Do ponto de vista econômico, a cena também pode ser lida como uma tentativa de descarga de uma tensão psíquica acumulada. Mais do que promover uma integração, esse momento antecipa um processo de desorganização mais amplo, na medida em que mostra a fragilização das mediações do eu e a dificuldade crescente de sustentar a distinção entre realidade e fantasia, abrindo caminho para os fenômenos posteriores do filme, marcados por vivências alucinatórias e pela dissolução progressiva da unidade do eu. Entendo a cena do ecstasy, portanto, como um ponto de inflexão em que o equilíbrio neurótico, ainda que precário, começa a ceder.
A relação sexual de Nina com Lily pode ser lida menos como a expressão de uma orientação homossexual constituída e mais como a emergência de conteúdos recalcados ligados ao corpo, ao desejo e à rivalidade feminina, num psiquismo até então rigidamente controlado. Inserida num vínculo fortemente simbiótico com a mãe, marcado por dependência, intrusão e dificuldade de separação, Nina permanece fixada numa posição infantilizada, com pouca abertura para investimentos amorosos autônomos, sobretudo heterossexuais. Nesse contexto, a aproximação de Lily aparece como uma via possível para a irrupção da sexualidade, mas de forma deslocada: trata-se de um objeto que condensa identificação e rivalidade, permitindo que Nina acesse o desejo sem romper diretamente com a figura materna. Assim, a cena pode ser entendida como parte do processo de desorganização das defesas obsessivas, no qual a sexualidade retorna de modo pouco simbolizado, misturando excitação, identificação e conflito.
A angústia de castração em Nina merece cuidado conceitual. Em Freud, ela é descrita de modo assimétrico no homem e na mulher: no menino, como medo da perda de um órgão; na menina, como parte do complexo de castração, que Freud elabora de forma distinta. Aplicar o conceito a Nina exige, então, uma extensão simbólica. Trata-se de ler as imagens recorrentes do filme, penas brotando do corpo, pele se transformando, membros se deformando, como representações de uma angústia ligada à integridade corporal e egóica. Essas imagens remetem ao medo de que a emergência da sexualidade destrua a imagem que Nina tem de si mesma como "boa", "pura", "perfeita". Freud distinguiu diferentes modalidades de angústia: a realística, diante de perigos externos; a neurótica, diante do perigo representado pelo próprio desejo pulsional; e a moral, diante das exigências do supereu. Em Nina, todas essas formas estão presentes, mas é a angústia neurótica, o medo dos próprios desejos, que domina sua psicopatologia. O perigo, para ela, não vem de fora. Vem de dentro, da ameaça de que os desejos recalcados irrompam e destruam sua imagem de si. A cena de masturbação interrompida pela visão de Erica condensa todos esses elementos: o desejo que emerge, a angústia que o acompanha, a intromissão materna que proíbe o prazer, a impossibilidade de separar sexualidade de culpa. Não fica claro se a mãe é real ou uma alucinação. E não precisa ficar. A mãe não precisa estar fisicamente presente para exercer sua função proibitiva. Foi internalizada pelo supereu, que vela continuamente o acesso ao prazer.
As alucinações de Nina constituem o fenômeno clínico mais representado no filme. À medida que a narrativa avança, tornam-se mais frequentes, mais intensas e mais difíceis de distinguir da realidade, tanto para Nina quanto para o espectador, que é deliberadamente colocado na posição de não saber o que é "real" e o que é alucinação. Essas alucinações não são necessariamente sintomas de psicose, ainda que superficialmente possam se assemelhar a esse tipo de fenômeno. Podem ser expressões do retorno do recalcado em sua forma mais intensa. Quando os mecanismos defensivos já não conseguem manter o conteúdo inconsciente à distância da consciência, esse conteúdo irrompe de forma deformada por meio de alucinações, que representam, em linguagem perceptiva, conteúdos que, no inconsciente, se organizam sob a forma de representações. As transformações corporais alucinatórias que Nina experimenta, a pele que racha, as penas que surgem, as pernas que se deformam como pernas de ave, são representações do corpo pulsional que a técnica coreográfica e os mecanismos obsessivos tentavam domesticar. O corpo controlado da bailarina perfeita se desfaz nessas visões, revelando um corpo selvagem, animal, não domesticado, o corpo do id que resistiu ao adestramento obsessivo. E é significativo que as alucinações se intensifiquem especificamente quando Nina começa a aproximar-se do papel do cisne negro, quando é exigida a contatar afetos e impulsos que sempre recalcou. A clínica observa frequentemente o mesmo fenômeno: a intensificação dos sintomas no momento em que a análise começa a tocar nos conteúdos mais recalcados.
Para sustentar a hipótese da neurose obsessiva e não da psicose, preciso ir a um par de conceitos que Freud trabalha em O Inconsciente, de 1915, e que ele já tinha esboçado antes, em Sobre a concepção das afasias, de 1891. São dois: a representação-coisa e a representação-palavra. Não vou expor isso como um verbete de dicionário porque isso esvazia o conceito. Prefiro entrar pelo problema clínico que eles ajudam a pensar: o que acontece quando algo do desejo, da agressividade ou da angústia não consegue ser simbolizado? O que Freud está tentando responder é uma questão clínica concreta: o que diferencia uma representação inconsciente de uma representação consciente? A resposta é precisa: no consciente, há a coisa amarrada à palavra. No inconsciente, há só a coisa, solta, muda, sem ligação verbal. A representação-coisa é o traço sensorial bruto, a imagem, o resto perceptivo. A representação-palavra é o que permite que esse traço seja nomeado, pensado, dito, integrado a um discurso. Um conteúdo inconsciente só vira pensamento quando uma representação-coisa encontra uma representação-palavra que a sustente. Quando o recalque acontece, ele não rebate o conteúdo todo de volta; ele corta, especificamente, esse vínculo. A representação-coisa permanece ativa no inconsciente, mas sem acesso à palavra.
E aí começa o problema clínico que me interessa: como é que esse conteúdo recalcado retorna? Porque ele sempre retorna. O nome que Freud dá a isso é "retorno do recalcado". O recalque nunca é uma operação concluída, é uma manutenção que tem que ser refeita o tempo todo, contra um conteúdo que continua tentando irromper na consciência. Pode retornar como sintoma, como ato falho, como sonho, como lapso, como angústia, como compulsão. E, em condições mais extremas, como alucinação. Em todos esses casos, o que retorna passa por algum tipo de disfarce: deslocamento, condensação, deformação. Não retorna idêntico ao que era. Retorna deformado, justamente para conseguir burlar a censura. O sintoma é uma versão deformada do desejo. O sonho também. A alucinação, idem. Muda o regime de aparição, mas o trabalho psíquico de fundo é o mesmo. E é isso que, para a leitura que proponho, importa: as alucinações de Nina não são uma ruptura com a organização anterior dela. São continuação dela em outro registro.
Faço aqui um desvio que talvez pareça lateral, mas que para mim é decisivo. Ele explica como uma alucinação pode acontecer numa estrutura neurótica. Trata-se do movimento regressivo na produção do sonho, que aparece em A interpretação dos sonhos, de 1900, especificamente na seção sobre regressão do capítulo VII. Freud descreve o aparelho psíquico como tendo uma direção "normal", progressiva, de funcionamento durante a vigília: os estímulos entram pelo polo perceptivo, atravessam os sistemas mnêmicos, passam pelo pré-consciente e desembocam na motricidade. O movimento vai da ponta perceptiva para a ponta motora. Durante o sono, esse caminho é bloqueado, a motricidade está suspensa. E o que Freud observa é que o material recalcado, em vez de seguir adiante, faz o caminho ao contrário. Ele regride. E essa regressão é uma regressão em direção à percepção. O pensamento volta a ser imagem. A palavra volta a ser coisa. O sonho não é "pensado", o sonho é visto, o sonhador alucina o sonho. Por isso, aliás, Freud chama o sonho de "alucinação" no sentido estrito do termo.
Esse ponto me parece importante porque impede uma leitura simplista: se Nina alucina, então Nina é psicótica. Freud complica essa conclusão. Ele mostra que o próprio aparelho psíquico neurótico também pode produzir imagens alucinatórias, especialmente no sonho. Porque se o sonho mostra que todo aparelho psíquico, neurótico inclusive, é capaz de transformar pensamento recalcado em percepção alucinada por meio de uma regressão tópica, então a alucinação deixa de ser, automaticamente, marca de psicose. Ela passa a ser uma possibilidade estrutural do psiquismo em geral. No sono, isso acontece todas as noites com qualquer um. Na vigília, exige uma falência simbólica mais aguda, mas é o mesmo mecanismo. O material recalcado, impedido de se ligar à representação-palavra, faz o percurso regressivo até a percepção. E aparece como imagem, como cena, como corpo se transformando.
É exatamente isso que acontece com Nina. Não que ela esteja sonhando, embora haja momentos em que o filme embaralha deliberadamente sonho, devaneio e alucinação, e isso não é um descuido de Aronofsky. É que o mesmo movimento regressivo que o aparelho dela faz à noite, dormindo, ela passa a fazer também acordada, à medida que a pressão simbólica do papel duplo aumenta. A representação-coisa do desejo, da agressividade, da rivalidade, da sexualidade, não conseguindo se amarrar à representação-palavra, porque Nina não tem como dizer essas coisas nem para ela mesma, faz o caminho de volta até o polo perceptivo e ressurge como alucinação visual e tátil. As penas que ela vê brotando das costas no espelho são, estruturalmente falando, da mesma natureza dos conteúdos que apareceriam nos seus sonhos. A diferença é que aparecem com os olhos abertos. Essa é uma diferença de grau, não de estrutura. E é isso que, para mim, sustenta a hipótese obsessiva. O duplo que persegue Nina, a imagem de si mesma como cisne negro, agressiva, sensual e destrutiva, é a representação alucinatória do id de Nina, daquilo que ela recalcou mas que insiste em se manifestar. O encontro com o próprio duplo produz angústia porque coloca o sujeito diante de uma parte de si mesma que rejeitou e que retorna como estranho e ameaçador.
A automutilação de Nina, os arranhões nas costas, a manipulação compulsiva da pele, a forma como trata o próprio corpo com uma crueldade que vai além do que a disciplina do balé exigiria, é um dos elementos clínicos mais graves e um dos que mais claramente remetem à pulsão de morte. Cabe frisar que a pulsão de morte não deve ser confundida com um desejo consciente de morrer. Ela opera no inconsciente, e se manifesta por comportamentos cujo sentido destrutivo o sujeito não reconhece. A automutilação, no caso de Nina, serve várias funções psíquicas simultaneamente. Funciona como autopunição: o corpo que deseja é punido pelo supereu pela dor que se inflige a si mesmo. Funciona como descarga tensional: diante da angústia insuportável que o contato com o inconsciente produz, a dor física oferece uma forma de descarga que alivia temporariamente a tensão psíquica. E funciona como evidência de existência: num estado de desrealização crescente, em que os limites do eu se tornam difusos, a dor física confirma a realidade do próprio corpo. A imagem das costas de Nina cobertas de arranhões que ela mesma produziu representa visualmente a lógica do masoquismo moral: o sujeito que se torna seu próprio perseguidor, que internalizou o agressor e o aplica sobre si mesmo. Erica, ao notar os arranhões e tentar cortar as unhas de Nina de forma cirúrgica e dolorosa, reproduz inconscientemente o mesmo padrão: a crueldade disfarçada de cuidado, o controle exercido sobre o corpo da filha sob aparência de proteção.
A compulsão à repetição aparece no filme em múltiplos níveis. Os rituais obsessivos de Nina são repetitivos. Repetem-se não porque sejam eficazes, mas porque a repetição em si é a forma de satisfação que a pulsão de morte encontrou. A história de Nina repete a história de sua mãe. Erica foi bailarina que sacrificou sua carreira, que renunciou ao seu desejo, em favor de uma gravidez que não desejava. Nina repete esse padrão. Também sacrifica sua vida ao ideal de uma perfeição que nunca se realiza. A própria estrutura do balé O Lago dos Cisnes ecoa esse padrão: a história do príncipe que se apaixona por Odette e, por fraqueza ou traição, é incapaz de salvá-la da maldição do feiticeiro. A heroína encontra sua redenção na morte, não na vida. Nina, ao identificar-se completamente com esse papel, encontra na morte ficcional do cisne branco a expressão de seu próprio destino inconsciente: a redenção que busca, a perfeição absoluta, a aprovação irrestrita do supereu, o amor sem ambivalência, só é possível na morte. A trajetória autodestrutiva culmina na cena final, quando Nina, depois de acreditar ter matado Lily no camarim, sobe ao palco e dança o cisne negro com uma intensidade nunca antes alcançada. Só então, ao olhar para o espelho quebrado e ao sentir o sangue que jorra do ferimento que ela mesma se infligiu, Nina compreende que não matou Lily: matou a si mesma. Sua morte é o desfecho necessário de uma pulsão de morte que não encontrou outra forma de satisfação. Diante da impossibilidade de viver como sujeito desejante sem destruir o arcabouço obsessivo que lhe dava identidade, a pulsão de morte encontrou seu caminho.
A hipótese da neurose obsessiva, na minha leitura, é a que melhor explica a psicopatologia de Nina. Os traços que poderiam sugerir estrutura psicótica, especialmente as alucinações, podem ser compreendidos, no quadro de uma neurose grave, como manifestações do retorno do recalcado em situação de descompensação extrema. A comparação com o caso do Homem dos Lobos revela convergências estruturais. Sergei Pankejeff, paciente de Freud, apresentava psicopatologia organizada em torno de uma cena primária traumática que havia fixado seu desenvolvimento libidinal em posição de passividade e angústia. Tal como Nina, era dominado por uma angústia de natureza fóbico-obsessiva que se manifestava em rituais, autopunição e relação profundamente ambivalente com as figuras parentais. No Homem dos Lobos, o sonho inaugural, o das janelas que se abrem e dos lobos brancos sentados na nogueira, condensa, à semelhança das alucinações de Nina, o retorno de um conteúdo recalcado de natureza sexual e aterrorizante que o eu não conseguia integrar. Nos dois casos, a figura animal é central: os lobos brancos do sonho de Pankejeff e o cisne negro de Nina funcionam como representações do inconsciente ameaçador, daquilo que foi recalcado mas insiste em retornar. A diferença fundamental está na organização específica do conflito: enquanto Pankejeff estruturava sua neurose em torno da castração paterna e do desejo passivo pelo pai, Nina organiza a sua em torno do vínculo pré-edípico com a mãe, configuração que Freud descreveu como própria da organização libidinal feminina, na qual as dificuldades de elaboração do primeiro objeto deixam marcas persistentes.
Se a tese de que um obsessivo pode alucinar parece estranha, e parece, eu sei, valia lembrar que o próprio Freud deixou um caso para isso. Refiro-me a História de uma neurose infantil, de 1918, o caso do Homem dos Lobos. Freud diagnostica esse paciente como neurótico obsessivo, com uma fobia infantil anterior que se desenvolveu nessa direção. E ainda assim, no curso da análise, Pankejeff relata um episódio alucinatório, ocorrido por volta dos cinco anos de idade. O menino brincava com um canivete no jardim, perto de uma árvore, com a babá sentada a poucos passos. A alucinação do dedo decepado, pendurado por um pedaço de pele, foi tão nítida que ele não teve coragem nem de olhar de novo para a mão. Quando finalmente olhou, o dedo estava intacto. Nunca tinha acontecido nada fisicamente. E, detalhe que muda tudo: ele não contou a ninguém. A cena ficou recalcada, e só foi reconstituída anos depois, na análise. Freud não interpreta isso como sinal de psicose. Pelo contrário, lê dentro da economia da neurose obsessiva: a babá havia, em algum momento anterior, ameaçado o menino dizendo que ele teria uma "ferida" no lugar do genital se continuasse se masturbando. A angústia de castração, insuportável e impossível de elaborar verbalmente naquela idade, sofreu um deslocamento do pênis para o dedo, um equivalente fálico, e retornou como representação-coisa pura, como alucinação visual. Esse caso é teoricamente importante, e talvez não seja exagero dizer que ele autoriza, sozinho, toda a leitura que faço de Nina. Porque Freud está mostrando, na prática clínica, que neuróticos podem ter episódios alucinatórios pontuais, justamente nos pontos em que a representação-palavra não dá conta. Onde há falha na simbolização, o recalcado irrompe como percepção. E isso não "vira" psicose. É a estrutura neurótica funcionando em seu limite, com falhas locais, mas sem que o vínculo geral com a realidade se perca.
Quero agora ir a um conjunto de passagens freudianas que sustentam essa tese com força ainda maior. A posição clássica de Freud sobre neurose e psicose, articulada nos dois textos de 1924, "Neurose e psicose" e "A perda da realidade na neurose e na psicose", costuma ser invocada para fechar a porta a qualquer hipótese de alucinação em estrutura neurótica. Mas lida com cuidado, ela é menos rígida do que a tradição posterior fez parecer. Em "Neurose e psicose", Freud propõe a fórmula que se tornou canônica: a neurose seria o resultado de um conflito entre o eu e o isso, a psicose um conflito análogo entre o eu e o mundo externo. Mas é em "A perda da realidade na neurose e na psicose" que Freud, retomando o problema, oferece uma formulação que, para mim, é decisiva: tanto na neurose como na psicose entram em jogo não apenas a perda da realidade, mas também um substituto da realidade. Freud insiste que a delimitação rigorosa entre as duas afecções fica enfraquecida pelo fato de que, também na neurose, não faltam tentativas de substituir uma realidade indesejável por outra mais conforme aos desejos. A diferença não é a existência da substituição, mas o seu modo: a neurose o faz com meios discretos e parciais, e a psicose com a reconstrução delirante massiva. Essa passagem diz, com todas as letras, que o mecanismo de substituição da realidade está em germe na neurose. Nina, ao recusar reconhecer o ódio que sente pela mãe e ao alucinar os quadros que se mexem na parede, está fazendo exatamente isso: substituindo uma realidade indesejável por outra mais conforme à sua organização psíquica. É uma substituição parcial, episódica, focada num conteúdo específico, e é exatamente isso que a posição clássica freudiana, lida atentamente, autoriza.
Recuando ainda mais nos textos, em "As neuropsicoses de defesa" de 1894 e em "Novas observações sobre as neuropsicoses de defesa" de 1896, Freud agrupa sob a rubrica de neuropsicoses de defesa três afecções que a tradição posterior separaria: a histeria, as representações obsessivas e a paranoia. O que justifica o agrupamento é o mecanismo etiológico comum, a defesa contra uma representação intolerável. O que diferencia as três afecções é o destino dado ao afeto desligado da representação recalcada. Na histeria, esse afeto é convertido em inervação somática. Na neurose obsessiva, o afeto é deslocado para outras representações, formando os sintomas obsessivos. Na paranoia, o afeto é projetado para o exterior e retorna como percepção: delírios, alucinações. O que Freud está dizendo, em 1894 e 1896, é que a alucinação é, ela própria, um destino do afeto recalcado. Não é uma propriedade inerente a uma estrutura psíquica em particular, mas um modo possível de retorno do que foi recalcado. Se a alucinação é um destino do afeto, ela é, em princípio, um caminho metapsicológico que se abre conforme as condições econômicas e dinâmicas do aparelho. Em alguns sujeitos esse caminho se torna preferencial e estrutural; em outros, permanece secundário e episódico, comparecendo apenas quando outras vias de retorno se mostram insuficientes. Lendo Nina à luz dessa formulação, posso dizer: ela é uma neurótica obsessiva em que a via principal de retorno do recalcado é o sintoma obsessivo, os rituais, o perfeccionismo, a ruminação, mas em que, sob pressão extrema, abre-se também a via alucinatória, episodicamente, conforme as defesas habituais vão se mostrando insuficientes.
Há ainda o Projeto de uma psicologia científica, de 1895, que sustenta, talvez como nenhum outro texto, a hipótese da universalidade do mecanismo alucinatório. É no Projeto que Freud descreve, pela primeira vez com precisão técnica, o que chama de satisfação alucinatória primária. Diante de um aumento de tensão pulsional, a fome no exemplo paradigmático, o aparelho psíquico do bebê tende a reinvestir o traço mnêmico da experiência anterior de satisfação com a mesma quantidade de investimento que outrora animou a percepção. O resultado é uma satisfação alucinatória: a imagem mnêmica é vivenciada como percepção atual, como se o objeto da satisfação estivesse efetivamente presente. O que esse texto estabelece é que a alucinação não é um fenômeno acidental ou anômalo do aparelho psíquico: ela é, ao contrário, seu modo de funcionamento mais primitivo e originário. O desenvolvimento subsequente, a instalação do princípio de realidade, a constituição do pensamento como atividade derivada, não suprime essa capacidade primária; apenas a recobre e a domina. Em condições particulares, em que o domínio secundário se enfraquece ou em que a pulsão atinge intensidade econômica que ultrapassa o investimento de realidade, o aparelho pode regredir momentaneamente a esse modo primário de funcionamento. A capacidade alucinatória de Nina não é, portanto, um sintoma estranho a sua estrutura. É uma capacidade que toda estrutura psíquica conserva, embora em condições normais permaneça subordinada ao funcionamento secundário.
Os Estudos sobre a histeria, de 1895, reforçam esse argumento com casos clínicos. Anna O., Emmy von N., Lucy R., Katharina, Elisabeth von R. apresentam, todas, fenômenos alucinatórios episódicos vívidos, sem que fossem por isso classificadas como psicóticas. Lucy R. e sua alucinação olfativa de cheiro de pudim queimado. Katharina via, durante seus ataques, a imagem de um rosto horrível. O caso paradigmático é o de Anna O., cujas alucinações de cobras pretas, particularmente a vivência à beira do leito do pai doente, na qual ela alucina uma serpente que se aproxima para mordê-lo, são descritas com riqueza de detalhes. Anna O. não é diagnosticada como psicótica em qualquer momento. Ela é descrita como histérica grave, e as alucinações comparecem como sintomas episódicos, ligados a estados de ausência, que regridem com o tratamento catártico. Freud não hesita em usar o termo Halluzination no sentido próprio para qualificar essas vivências, e o faz sem por isso deslocar as pacientes para o quadro das psicoses. Se a histeria é capaz de alucinação episódica, no próprio reconhecimento freudiano, então não há razão metapsicológica imediata para que a neurose obsessiva, que partilha com a histeria o mesmo princípio defensivo geral, o recalque, esteja, por princípio, impedida disso, sob condições análogas.
No caso do Homem dos Ratos, de 1909, o paradigma freudiano da neurose obsessiva, há vivências representacionais de extraordinária intensidade visual que ocupam uma posição de borda entre a representação intensa e o fenômeno alucinatório propriamente dito. À noite, entre meia-noite e uma hora da madrugada, o paciente sente a presença alucinatória do pai morto a observá-lo. Para de trabalhar, abre a porta para olhar no corredor, como se fosse verificar se a aparição era real. Freud não usa o termo alucinação para essas vivências. Ele as descreve como representações obsessivas vívidas, vivências de presença, sentimentos de algo que está ali sem que esteja efetivamente ali. Mas lendo essas passagens, eu reconheço o mesmo tipo de fenômeno que aparece em Nina nos primeiros movimentos do filme, antes da descompensação franca. Aquele momento em que ela vê a si mesma na escada do metrô, ou aquele em que percebe um rosto que se mexe no quadro pintado pela mãe, esses fenômenos têm o mesmo estatuto de borda que Freud descreve no Homem dos Ratos: representações intensamente investidas que adquirem qualidade quase perceptiva, sem ainda atravessar plenamente o limiar da alucinação. Isso mostra que a passagem do sintoma obsessivo ao fenômeno alucinatório não é uma ruptura abrupta. Há um continuum, uma gradação, em que a representação obsessiva, ao se intensificar economicamente, vai progressivamente se aproximando do limiar perceptivo, até que, em condições particulares, o atravessa.
Uma das objeções mais sérias à hipótese que defendo apoia-se na distinção freudiana entre recalque, próprio das neuroses, e Verwerfung, mecanismo que Freud descreve como específico de uma operação distinta, frequentemente associada à psicose. A objeção sustenta: se há alucinação verdadeira, há Verwerfung; e onde há Verwerfung, há psicose, não neurose. Essa objeção precisa ser enfrentada com cuidado. O termo Verwerfung aparece particularmente no caso do Homem dos Lobos, em que Freud descreve uma reação muito enérgica do paciente contra a castração: uma recusa em aceitá-la em sua forma mais radical, pela qual o sujeito não emite julgamento sobre a realidade da castração, comportando-se como se ela não existisse. Freud distingue essa atitude da operação do recalque. Sobre essa distinção, leitores posteriores de Freud edificaram uma divisão estrutural rígida entre neurose e psicose. Mas há três pontos que, lidos no próprio Freud, qualificam a equação simples "alucinação igual a Verwerfung igual a psicose". Primeiro: Freud não restringe a Verwerfung à psicose nesse passo do Homem dos Lobos. Ele a atribui ao próprio Pankejeff, sujeito que, em outros momentos do caso, é descrito como neurótico, com forte componente obsessivo. Há, portanto, no próprio texto freudiano, uma indicação de que a Verwerfung pode operar também em estruturas que não são primariamente psicóticas. Segundo: mesmo que se aceite que a Verwerfung está particularmente ligada à psicose, isso não impede que o retorno do recalcado nas neuroses possa adquirir forma alucinatória, por via de regressão tópica e fracasso defensivo, conforme o esquema que articulei a partir de A interpretação dos sonhos. Terceiro: Freud articula, em "A negativa" de 1925, uma terceira via, a denegação, que é específica das estruturas neuróticas e que mostra como o conteúdo recalcado pode retornar à consciência sob a forma negada. Reconheço a denegação operando em Nina em diversos momentos. Quando Erica pergunta se ela está se machucando de novo e Nina nega, mas continua a se arranhar; quando Thomas insinua que ela é capaz de sentir e Nina diz que sim, mas seu corpo continua rígido; quando ela afirma amar a mãe sem reservas e ao mesmo tempo alucina a mãe sussurrando dos quadros. Em todos esses momentos, a estrutura é a da denegação: o conteúdo recalcado retorna sob a forma da negação, presente e ausente ao mesmo tempo. A denegação é uma via neurótica de retorno do recalcado, e ela não exige Verwerfung. Ela coexiste, na economia psíquica de Nina, com os fenômenos alucinatórios, o que mostra que a alucinação ali pode ser, ela própria, uma via mais radicalizada do mesmo retorno do recalcado que, em outros momentos, opera por denegação ou por sintoma.
Para sustentar a distinção entre a alucinação no obsessivo e a alucinação no psicótico, é preciso confrontar a hipótese com o caso paradigmático da psicose freudiana, o caso Schreber, analisado em "Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia em autobiografia", de 1911. Daniel Paul Schreber apresenta uma psicose plena, com delírio de transformação em mulher, missão divina de redenção do mundo, e fenômenos alucinatórios: vozes dos raios de Deus, ruídos peculiares, vivências corporais de milagres aplicados ao seu organismo. É no caso Schreber que Freud articula, talvez de modo mais incisivo, a tese da alucinação como retorno do recalcado, agora vinculada ao mecanismo específico da projeção. A frase célebre é a seguinte: não é correto dizer que a sensação interiormente suprimida foi projetada para fora; o que se vê é, antes, que aquilo que foi internamente abolido retorna desde fora. O ponto mais importante para o meu argumento é a formulação freudiana sobre a alucinação como tentativa de cura. Em Schreber, Freud diz que o delírio é a tentativa de recuperação, a reconstrução após a catástrofe. O que está em jogo em Schreber é uma economia em dois tempos: primeiro, uma catástrofe, o desinvestimento massivo do mundo, a retirada da libido dos objetos externos, e depois, uma tentativa de reocupar esse vazio, investindo representações com qualidade perceptiva. A alucinação se inscreve, portanto, em uma economia geral em que a relação com a realidade externa foi rompida. Essa concepção abre uma porta argumentativa importante para a leitura de Nina. Se a alucinação é uma tentativa de reinvestir o mundo a partir de uma representação intensa, isso significa que ela não é, em si, sinal de psicose: ela é sinal de que algo, na economia psíquica, exigiu reinvestimento e encontrou na via alucinatória sua expressão. Em Nina, há reinvestimento alucinatório, mas localizado em torno de conteúdos específicos, a mãe sufocante, a rivalidade com Lily, o desejo sexual recalcado, a transformação em cisne, sem que se opere o desinvestimento massivo do mundo que caracteriza Schreber. Em Schreber, a alucinação tende a ser sustentada, recorrente, articulada em sistemas, ela compromete duravelmente a relação do sujeito com o mundo. Schreber acredita ser a esposa de Deus, está em missão cósmica, vive em outro mundo. Em Nina, nada disso ocorre: a alucinação é episódica, localizada em torno do conflito específico do papel duplo, transitória; a prova de realidade é restabelecida rapidamente após cada episódio, e a organização defensiva fundamental permanece, ainda que em colapso progressivo.
Há ainda, em Construções na análise, de 1937, uma passagem decisiva. Discutindo o trabalho da construção analítica, Freud observa que essas construções, quando bem-sucedidas e ressonantes com a verdade histórica do paciente, podem suscitar nele vivências de qualidade alucinatória. De vez em quando, escreve Freud, surgem em pacientes durante a análise alucinações vívidas, recordações nítidas que se impõem com força perceptiva. E ele acrescenta que esses fenômenos não são, em geral, sintomas psicóticos: são fragmentos da verdade histórica do paciente, retornos do recalcado que assumiram, sob a influência da construção, qualidade quase perceptiva. O que ocorre nesses pacientes não é um delírio psicótico, é um fenômeno alucinatório limitado, pontual, que dura o tempo da construção ser elaborada, e que, longe de prejudicar a análise, indica que tocamos em um ponto sensível. Essa passagem é, para o meu argumento, das mais decisivas. Freud distingue explicitamente, no contexto da análise, fenômenos alucinatórios que não são sintomas psicóticos, e o faz no fim da obra, com a maturidade conceitual de quarenta anos de prática clínica.
Reunidos esses elementos, posso articular as condições metapsicológicas em que, dentro do quadro freudiano, um neurótico obsessivo pode apresentar fenômenos alucinatórios. A primeira é a intensificação econômica do material representacional recalcado. O obsessivo opera com um material representacional intensamente investido, em virtude do modo como o recalque opera nele, atingindo prioritariamente o afeto e o impulso. Essa configuração faz com que o aparelho psíquico do obsessivo esteja, por assim dizer, carregado representacionalmente. Em Nina, a intensificação econômica é evidente: a aproximação da estreia, a exigência do papel duplo, o desejo sexual que se reativa, a rivalidade com Lily, tudo isso aumenta a carga sobre representações já intensamente investidas até que algumas atingem o limiar perceptivo. A segunda condição é o fracasso ou enfraquecimento das defesas habituais. O obsessivo dispõe de um arsenal defensivo sofisticado, mas esse arsenal exige investimento permanente. Em condições particulares, estados regressivos, exaustão, momentos de intensa angústia, ação de substâncias, as defesas podem enfraquecer e o material recalcado pode emergir mais diretamente. A terceira condição é a regressão tópica até o sistema percepção, o mecanismo universal do aparelho psíquico que demonstrei a partir de A interpretação dos sonhos. No obsessivo, essa regressão pode ser desencadeada por estados regressivos análogos aos do sonho. Em Nina, as primeiras visões ocorrem em estados de fronteira entre vigília e sono; à medida que as defesas vão cedendo, esses estados se prolongam e a regressão tópica deixa de ser pontual para se tornar contínua. A quarta condição é a associação a um trauma ou a uma representação especialmente investida. A vivência alucinatória episódica no obsessivo tende a estar ligada a uma fantasia ligada à castração, à cena primária, a um trauma particular, ao núcleo edipiano. Em Nina, o conteúdo das alucinações não é arbitrário: a mãe que vigia dos quadros, o duplo de si mesma como cisne negro, a transformação corporal em ave, o sangue nas costas, tudo isso converge em torno do mesmo núcleo recalcado.
Para distinguir a alucinação episódica em estrutura neurótica obsessiva da alucinação estrutural própria da psicose, articulo cinco critérios que decorrem, na minha leitura, da articulação metapsicológica freudiana. O primeiro critério é o caráter episódico: a alucinação no obsessivo é transitória, localizada temporalmente, e se dissipa quando as condições que a desencadearam se afastam; a prova de realidade é restabelecida rapidamente. Na psicose, ao contrário, a alucinação tende a ser sustentada, recorrente, integrada ao funcionamento psíquico habitual do sujeito. Nina, mesmo no auge da descompensação, alterna momentos alucinatórios com momentos de funcionamento relativamente preservado: ela ainda dança, ainda interage com colegas, ainda chega ao teatro. O segundo critério é o caráter parcelar: a alucinação no obsessivo é restrita a um conteúdo específico, ligado ao núcleo recalcado fundamental do sujeito; ela não se generaliza, não toma conta de toda a percepção. Em Schreber, o delírio organiza um sistema completo: cosmologia, missão, transformação corporal, relação com Deus. Em Nina, as alucinações são focadas: a mãe, a transformação em cisne, o duplo. O terceiro critério é a ligação ao retorno do recalcado em condições de regressão tópica e fracasso defensivo. O quarto critério é a compatibilidade com a manutenção, no quadro mais amplo, da prova de realidade e da organização defensiva neurótica. No obsessivo que alucina episodicamente, as defesas continuam operando, ainda que sob pressão, o investimento da realidade externa permanece, a organização identitária do sujeito não se desfaz. Em Nina, isso é evidente até o último ato do filme: ela continua querendo ser perfeita, continua querendo agradar Thomas, continua sob a influência de Erica. Mesmo nas cenas mais intensamente alucinatórias, há permanência de uma economia psíquica reconhecível, da qual as alucinações são episódios e não substituição. O quinto critério é a função do fenômeno na economia psíquica: na psicose, a alucinação é uma das vias pelas quais o aparelho psíquico tenta operar a reocupação de um mundo do qual se retirou; no obsessivo, a alucinação é um sintoma entre outros, uma das vias pelas quais o recalcado retorna quando as demais se mostram insuficientes, sem que o aparelho precise reconstruir mundo algum.
Há ainda um texto freudiano que ilumina especificamente a configuração de Nina: "A disposição à neurose obsessiva", de 1913. Nesse texto, Freud localiza o ponto de fixação da libido obsessiva no estágio sádico-anal, anterior ao primado fálico. Em Nina, a fixação pré-edípica assume um peso talvez ainda maior do que o que Freud descreve para o obsessivo típico. A relação com Erica não é apenas o cenário do conflito: ela é o conflito. Nina não consegue se separar da mãe, e a sexualidade adulta, heterossexual, autônoma, permanece bloqueada por essa fixação. É por estar fixada em uma posição libidinal anterior ao primado fálico que Nina dispõe de pouco material psíquico para elaborar a sexualidade adulta. Quando o cisne negro a confronta com essa sexualidade, ela não tem como simbolizá-la a partir de uma posição madura. A sexualidade retorna, então, não como desejo subjetivado, mas como invasão pulsional bruta, material que, justamente por não ter sido elaborado, é particularmente propenso a buscar vias regressivas de expressão, incluindo a alucinatória. As penas que brotam, a pele que racha, as pernas que se deformam como pernas de ave, são figurações de um corpo pulsional não simbolizado, próprio da organização libidinal pré-fálica em que Nina permanece fixada. As alucinações dela não são formas vazias: elas têm o conteúdo específico que decorre de sua fixação libidinal. E essa especificidade é mais um indício de que se trata de uma neurose obsessiva grave, e não de uma psicose.
Tenho defendido a leitura obsessiva. Mas seria desonesto não reconhecer que, em vários momentos, O Cisne Negro escorrega para o terreno da psicose. As alucinações de Nina, à medida que o filme avança, deixam de ser pontuais e passam a ser sistemáticas, prolongadas, com perda visível do juízo de realidade. As penas que brotam das costas, a transformação física em cisne, os olhos vermelhos, isso já é, talvez, uma deflagração psicótica franca. Como sustentar, então, a hipótese obsessiva? A resposta que tenho é que a estrutura de base de Nina é obsessiva, e que o filme mostra um processo: a passagem de uma neurose obsessiva grave para um surto que vai progressivamente ganhando contornos psicóticos. Aronofsky, no fundo, está filmando esse colapso. Ele não está mostrando um obsessivo "estável", nem um psicótico "estabelecido"; está mostrando uma estrutura que cede sob pressão. E o que cede primeiro é a função simbólica, a capacidade de amarrar coisa e palavra. Quando a função simbólica cede, o aparelho psíquico todo passa a funcionar em regime regressivo, e aí as alucinações se multiplicam. A leitura freudiana clássica tem uma vantagem específica sobre outras leituras: permite entender como os sintomas obsessivos iniciais, perfeccionismo, rituais, autopunição, se conectam às alucinações finais. Não como rupturas, mas como continuidades. A representação-coisa que retornava como sintoma corporal, o coçar das costas, é a mesma representação-coisa que, mais adiante, retorna como alucinação visual, as penas brotando. Muda a forma. Não muda o conteúdo recalcado.
A questão clínica que isso levanta é a seguinte: se um obsessivo grave, sob pressão extrema, atravessa um surto que se aproxima do funcionamento psicótico, deve-se rediagnosticá-lo retroativamente como psicótico? Ou deve-se manter o diagnóstico estrutural da neurose, qualificando o surto como complicação aguda? Freud parece preferir a segunda opção. Ele é cauteloso em afirmar fronteiras absolutas entre as estruturas, e enriquece sua nosografia com observações sobre os fenômenos limítrofes, sobre as combinações e sobre as transições. O Homem dos Lobos apresenta uma alucinação inequívoca em sujeito que Freud caracteriza como neurótico, e Freud não rediagnostica o paciente. Ele acomoda o fenômeno na estrutura. A flexibilidade da nosografia freudiana consiste em poder acomodar fenômenos limítrofes sem precisar refazer a estrutura a cada novo episódio. É essa flexibilidade que me autoriza, no fim das contas, a manter a leitura obsessiva de Nina, mesmo reconhecendo que o filme, em seus momentos mais intensos, escorrega para o terreno da psicose. A estrutura de base é obsessiva; o que o filme mostra é o que acontece quando essa estrutura é levada ao seu limite, com defesas progressivamente fracassando, com regressão tópica progressivamente mais sustentada, com retorno do recalcado progressivamente mais direto.
O desfecho trágico de Nina, sua autodestruição no momento culminante da performance, pode ser lido como a expressão do conflito neurótico levado à sua consequência extrema. A neurose obsessiva, na sua forma mais grave, produz um impasse: o sujeito não consegue viver plenamente, porque o supereu proíbe o prazer e o desejo, nem morrer simbolicamente, porque a vida, mesmo sofrida, é o que o eu conhece. Nina encontra uma solução paradoxal para esse impasse: a morte no apogeu da perfeição. Na lógica do supereu obsessivo, essa é a única forma de sucesso que não exige punição, porque a punição já está incorporada ao próprio ato. Aronofsky filma, em imagens, aquilo que Freud escreveu em texto: o ideal, quando se torna tirânico, mata o sujeito que ele prometia salvar. E mata, antes de mais nada, a possibilidade de esse sujeito se dizer em palavras. Quando a palavra falha, sobra a coisa. Quando a coisa não tem onde se ancorar, ela vira percepção. E quando a percepção toma o lugar do pensamento, o sujeito alucina.
O Cisne Negro não fala apenas de Nina. Fala de uma cultura que exige das mulheres que buscam a excelência uma perfeição que é, por definição, destruidora. A bailarina perfeita que se autodestrói na busca pelo papel perfeito é metáfora de uma subjetividade contemporânea que internalizou as exigências do ideal de desempenho e de estética a ponto de torná-lo indistinguível das exigências do supereu. O filme não é apenas documento de uma neurose individual, é sintoma cultural, expressão, em forma artística, do mal-estar de uma civilização que Freud já havia diagnosticado como fundamentalmente produtora de culpa e sofrimento. O cinema de Aronofsky, ao colocar a estrutura obsessiva no centro de uma narrativa visual e emocional, presta-se à compreensão psicanalítica da condição humana. O Cisne Negro permanece, para mim, como uma das obras cinematográficas contemporâneas mais ricas para a reflexão psicanalítica. É um espelho em que a teoria pode contemplar sua própria eficácia e, ao mesmo tempo, ser desafiada pela complexidade da experiência humana que o cinema, em seus melhores momentos, é capaz de capturar.
Leonardo de Carvalho e Mello