Eros, Thanatos e o Homem dos ratos

Eros, Thanatos e o Homem dos Ratos

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Há, na obra de Freud, certas viradas que reorganizam tudo o que veio antes, e em 1920, com Além do Princípio do Prazer, ocorre uma das mais radicais: a postulação da pulsão de morte. O que me ocorreu, relendo o caso do Homem dos Ratos, as Observações sobre um Caso de Neurose Obsessiva, de 1909, foi que aquele relato clínico, escrito onze anos antes, já fervilhava de fenômenos que obrigariam Freud a forjar o novo conceito. É quase como se o laboratório estivesse pronto bem antes da teoria que viria explicá-lo. E é essa hipótese, confesso que um tanto temerária, que quero perseguir aqui: a de que o caso de Ernst Lanzer fornece, retroativamente, o material empírico em que a metapsicologia de 1920 se deixa ver funcionando, peça por peça.

Não pretendo, com isso, sugerir que Freud já soubesse em 1909 o que só formularia em 1920. Seria anacronismo ingênuo. Meu ponto é outro, e mais modesto: que a clínica precede a teoria, que Lanzer mostrou a Freud, na cena viva da neurose obsessiva, aquilo que só anos depois ganharia nome de pulsão de morte. Tomo, portanto, a sintomatologia desse paciente como matéria-prima para ver o embate entre Eros e Thanatos antes que Eros e Thanatos existissem como tais.

Convém lembrar de onde Freud partia. Até 1920, a psicanálise operava sob o princípio do prazer, que, junto com o princípio de realidade, regia o aparelho psíquico. A ideia era simples e elegante: a atividade psíquica visa evitar o desprazer e obter prazer, o que equivale a reduzir ou extinguir a excitação acumulada. O problema é que a clínica não cabia nessa elegância. Os neuróticos de guerra que repetiam, noite após noite, o sonho do trauma; a criança que reencenava sem cessar a partida da mãe no jogo do fort-da; e, na transferência, os pacientes que reeditavam o pior: tudo isso colocava a Freud uma pergunta que ele não conseguia despachar: por que o psiquismo repete, com obstinação, o que só lhe traz dor?

A resposta de 1920 é que, aquém ou além do princípio do prazer, opera algo mais primitivo: a compulsão à repetição, uma tendência do organismo a retornar a um estado anterior e, no limite, ao inanimado. Essa força silenciosa, que empurra para a dissolução e a quietude absoluta, Freud a nomeia pulsão de morte. Contra ela, e enredada com ela, postula Eros, a pulsão de vida, que liga, une, conserva, complexifica. A vida passa a ser pensada como campo de batalha entre duas forças antagônicas e, ao mesmo tempo, inseparáveis. A pulsão de morte pode voltar-se para dentro, como masoquismo, ou ser projetada para fora, como sadismo e agressão. É uma lente sombria, e sei que muitos a rejeitaram. Eu mesmo a recebi, no início, com desconfiança. Mas é uma lente que ilumina o que antes ficava no escuro: a reação terapêutica negativa, a força do sentimento de culpa e, sobretudo, o sofrimento obsessivo.

Desde as primeiras entrevistas, Lanzer impõe à cena analítica um circuito que, hoje, leio como uma antecipação quase literal da compulsão à repetição. Ele volta, com variações mínimas, às mesmas dúvidas, às mesmas verificações, às mesmas interrogações sobre culpa e dívida, e sobretudo à mesma fantasia horrorífica do suplício dos ratos. O que me parece clinicamente notável é que não se trata de um medo do qual ele se afastaria: é uma ideia que se impõe apesar do desprazer e que, expulsa por uma porta, retorna por outra. Ele tenta dissolvê-la por rituais e raciocínios, e é precisamente nos rituais e raciocínios que a cena volta, ganha corpo, se ramifica em novas proibições, exige novas reparações. O pensamento obsessivo fabrica a necessidade do próximo pensamento obsessivo: o circuito se autoalimenta. E ao fazê-lo, impõe ao sujeito justamente a dose de desprazer que deveria poupá-lo. Eis, em ato, o argumento de 1920: há processos que operam para além do princípio do prazer.

Quando Freud, em Além do Princípio do Prazer, aproxima os sonhos traumáticos, os jogos infantis e os destinos neuróticos, o que ele está dizendo é que o psiquismo é compelido a refazer a cena em que a excitação excedeu a sua capacidade de ligação. A história do suplício dos ratos, que Lanzer ouve de um oficial e investe de horror no mesmo instante, é a matriz de um campo inteiro de equivalências. A imagem da penetração violenta do animal no ânus se converte em signo de perigo onipresente e, por associações sonoras e semânticas, organiza uma rede que ultrapassa em muito o episódio de origem. O sujeito não apaga a cena; ele a reinscreve em fórmulas, promessas, proibições e verificações que, no fundo, a repetem sob outra forma. Por isso, mesmo compreendendo o absurdo de certas precauções, ele não as larga. Não é um erro de raciocínio que se corrija com argumentos: é uma engrenagem pulsional que o obriga a reencenar. Aprendi, com casos assim, a desconfiar profundamente da tentação de demonstrar ao obsessivo que ele está sendo ilógico, como se o problema fosse de lógica.

Aqui entra o que para mim é o ponto mais fino, e o mais melancólico, do caso. Freud sustenta que Eros é o que liga: forma unidades maiores, reúne o disperso, preserva a vida. Ora, o obsessivo é um ligador por excelência. Lanzer constrói redes de conexão exaustivas: regras, condições, exceções, verificações, um emaranhado de sentido com que tenta conter a irrupção do pior. E é nesse trabalho de ligação que floresce a célebre criatividade verbal obsessiva. Ratten, os ratos, ressoa com Raten, as prestações, que por sua vez se encadeia a Heiraten, casar. Não tomo isso por trocadilho. A cadeia fixa trilhas pelas quais a excitação corre: pensar no casamento dispara a série das prestações e dívidas; pensar em dívidas dispara a imagem dos ratos. E aqui está a perversidade da coisa: o que Eros lança para dentro da rede, como tentativa de ligar e proteger, é capturado pela pulsão de morte, que transforma a rede em armadilha. O mesmo instrumento que deveria salvar o sujeito é o que o aprisiona. Demorei a entender essa reviravolta, e quando a entendi ela me pareceu quase insuportável: a defesa e a doença usam a mesma ferramenta.

É o que se vê no episódio da dívida e do pagamento, que desencadeia uma cascata inteira a partir de quase nada. Uma taxa postal a pagar, um empréstimo, a intervenção de um superior, a dúvida sobre quem afinal arcou com o custo: banalidades que, no campo obsessivo, viram o gatilho de uma engrenagem infernal. Lanzer fantasia que a sua negligência traria vergonha ao pai, já morto, ou perigo à mulher amada. E a cadeia significante o captura: as prestações pedem quitação, a quitação evoca o risco de pagar com o corpo, e pagar com o corpo liga-se à cena dos ratos. O que me impressiona é a economia disso: em vez de resolver a questão factual de modo direto, o sujeito escolhe, sem o saber, a via mais longa, mais sofrida, mais custosa, como se precisasse pagar demais para que algum alívio fosse possível. Esse pagar demais é a própria figura do além do princípio do prazer: o sistema aceita uma cota maior de desprazer para satisfazer a exigência de repetir e, repetindo, tentar enfim ligar o que ficou solto.

Volto à fantasia central, a do suplício dos ratos, porque há nela algo que sempre me deteve. O pensamento não se contenta em temer que isso aconteça a mim. Ele insiste em ligar o suplício ao pai e à mulher amada, isto é, aos objetos mais investidos, justamente. É aí que a ambivalência entre amor e ódio encontra o seu palco. O filho devotado, que idealiza o pai, acalenta ao mesmo tempo impulsos hostis nascidos de frustrações e proibições; a defesa não admite esse ódio e o projeta como perigo externo. Mas o mecanismo falha, e o próprio gesto de proteger se converte em maneira de ferir. É exatamente neste ponto que vejo a pulsão de morte se infiltrar no coração de Eros: quanto mais Lanzer ama, mais perigoso se torna, porque o objeto amado é o primeiro a ser convocado à cena do dano. Quando o tratamento funciona, o que ele torna visível é desconcertante: que o zelo excessivo é uma forma velada de agressividade, um modo de manter o outro cativo na órbita de uma dívida que não se quita.

Os ratos que roem e penetram figuram a força que ataca o corpo e busca desintegrá-lo. E não me parece acaso que a fantasia se dirija ao ânus, zona erógena que, na teoria freudiana, está ligada ao sadismo e à agressividade. A fantasia de Lanzer é, nesse sentido, uma representação quase pura da pulsão de morte, uma imagem da crueldade que habita o seu psiquismo. Mas, e este é o nó, a crueldade não consegue se dirigir abertamente ao objeto, porque o objeto é amado. Bloqueada para fora, ela retorna para dentro, como moralização impiedosa de si: necessidade de punição, gosto pela penitência, um prazer paradoxal em sofrer sob a bandeira do dever. Freud mostrará que o masoquismo, erógeno e moral, depende dessa viragem do sadismo contra o próprio eu. No caso, a viragem se traduz em cerimoniais de reparação que consomem horas, desgastam os laços e preservam uma ordem supostamente segura: ordem que, na verdade, só serve para manter o sintoma de pé. O supereu, herdeiro do Édipo e da autoridade paterna internalizada, é o veículo dessa crueldade voltada para casa.

Há um aspecto do sofrimento obsessivo que esta leitura ilumina melhor que qualquer outra, e que diz respeito ao agir. Lanzer adia tudo. Condiciona cada decisão a verificações intermináveis, institui regras que impedem qualquer ato final. Lido por 1920, esse adiamento é uma vitória silenciosa da tendência ao zero de tensão: em nome de proteger o vínculo, o sujeito impede que o vínculo se realize em ato. O casamento, no caso, sempre prometido e sempre suspenso. O sistema se autorregula para não sofrer transformações irreversíveis. A vida se organiza como uma antecâmara permanente, um corredor que nunca desemboca em sala alguma, e a repetição é a arquitetura desse corredor: cada nova condição prometida para finalmente decidir torna-se o motivo de um novo adiamento. Daí, penso, aquela experiência subjetiva tão característica do obsessivo: o esgotamento sem acontecimento, a fadiga sem obra, o cansaço de quem trabalhou muito e não fez nada.

O tempo, aliás, esclarece-se por inteiro nessa chave. O obsessivo vive sob a tirania do prazo e, ao mesmo tempo, sob a ilusão de ter tempo ilimitado para se preparar. Multiplicando verificações, ele estende indefinidamente o presente e foge do instante de decisão, que sempre implica perda. É a engenharia temporal do projeto conservador que Freud descreve em 1920: manter o sistema em regime de mínima variação, devolvendo-o tanto quanto possível a estados já conhecidos. Decidir seria deixar morrer uma das possibilidades, e é precisamente o que o aparelho, nesse regime, se recusa a fazer.

A transferência, como seria de esperar, vira o palco de tudo isso. Lanzer leva ao consultório o mesmo circuito de garantias e escrúpulos: pede autorização para falar, impõe condições para revelar uma lembrança, volta atrás porque talvez não tenha dito com exatidão, examina o pagamento dos honorários como se ali estivesse a chave moral de toda a análise. Os atrasos precisam ser compensados com longas caminhadas de volta; as frases exigem ser desfeitas e refeitas; as precauções paralisam o avanço do trabalho. É por isso, e 1920 o explica, que lembrar não basta: o sujeito precisa repetir, na transferência, aquilo que não consegue recordar como história. E a tarefa técnica, a mais difícil que conheço, é sustentar essa repetição sem se tornar seu cúmplice. O mesmo pai é monumento e obstáculo; a mesma mulher, veneração e temor; o mesmo analista, salvador procurado e cúmplice testado de uma catástrofe possível. Não é indecisão psicológica; é a coabitação real de tendências opostas. Os rituais, nesse contexto, são compromissos instáveis: prometem proteção, que é de Eros, mas, pelo excesso, instauram o império do mesmo, que é de Thanatos.

Em termos técnicos, o caso me ensinou por que oferecer garantias é a pior coisa que se pode fazer com um obsessivo. Quando a compulsão atua, lembrar não basta; é preciso repetir e, sobretudo, elaborar. A análise visa converter as atuações e os cerimoniais em material representável e historicizável, sem ceder à tentação de dar garantias nem de substituir a repetição por proibições normativas, porque qualquer garantia que eu desse seria imediatamente incorporada como mais uma peça do ritual. Acolher as associações, notar a cadeia Ratten/Raten/Heiraten, seguir os deslocamentos da culpa, é favorecer que Eros opere sem que a pulsão de morte capture o processo. A neutralidade técnica, aqui, não é frieza: é a única forma de impedir que a própria análise vire mais um cerimonial.

Há ainda o gozo que se produz no coração mesmo do desprazer, e que é talvez o que há de mais contraintuitivo no caso. Freud sublinhou que o além do princípio do prazer não significa contra ele, mas uma mudança de nível: o aparelho aceita atravessar quantidades maiores de desprazer se, com isso, satisfaz uma exigência estrutural mais profunda, a repetição que conserva algo do passado não ligado. Isso torna inteligível a obstinação de Lanzer em verificar, refazer, desfazer, pagar e repagar: cada ato doloroso produz um alívio mínimo e provisório que, para se manter, exige que o ato se repita. A satisfação menor garantida pelo rito mantém a máquina girando, enquanto a satisfação maior, o casamento, a vida partilhada, a libertação do medo, é adiada sem fim. O obsessivo, no fundo, troca uma felicidade possível por um alívio garantido, e é um péssimo negócio que ele refaz todos os dias.

Quero dizer uma palavra sobre o corpo e a linguagem, porque o caso é exemplar nisso. A fantasia do rato é cruamente corporal. E no entanto o seu destino obsessivo é tornar-se linguagem: multiplicar-se em proibições verbais, regras, nomes. Não vejo aí uma sublimação pacificadora, dessas que apaziguam; vejo uma reinscrição do corpo na palavra, de modo que a ferida continue sangrando, agora em signos. Dizer o rato não livra do rato. Muitas vezes é apenas o passo necessário para que a cena se separe da obrigação de se repetir e se torne, enfim, lembrança elaborável. O analista sustenta a travessia do dizer sem confundir a fala com cura automática, e essa distinção, entre falar e se curar de falar, é das mais difíceis de transmitir a quem começa.

Por fim, as identificações e o luto, que dão ao caso a sua tonalidade trágica. Lanzer oscila entre identificar-se ao pai idealizado e rebelar-se contra o pai que interditou o seu projeto amoroso. Com a morte do pai, a culpa não se alivia: exacerba-se. A fantasia de proteger a memória paterna coloca o próprio Lanzer no centro da cena de perigo, e o impulso agressivo, impedido de investir um objeto que já não está lá, retorna sobre o eu como autorrecriminação, cerimonial exaustivo, autossacrifício. É contraintuitivo, mas a clínica o confirma sem cessar: a morte real do pai, longe de resolver o conflito, intensifica a necessidade de pagamento simbólico e de vigilância moral. O morto cobra mais que o vivo.

Disso tudo extraio uma proposição sobre o amor que me parece o cerne do caso. Amar, para um sujeito assim, é perigoso, porque colocar alguém no centro dos investimentos é arrastá-lo, pela ambivalência, para o centro do ódio recalcado. A solução obsessiva, proteger por excesso, vigiar, adiar, é, no fundo, uma forma de não amar sem ter de confessá-lo a si mesmo. Ao elevar Eros à lei absoluta, em que só o bem do outro importa, o sujeito abre uma porta lateral para que a pulsão de morte trabalhe disfarçada de proteção. O resultado são relações saturadas de dever e de medo, em que a vida em comum é eternamente prometida e eternamente suspensa. Não conheço definição mais exata da tragédia obsessiva.

Uma última observação, e ela é de método. A contribuição de 1920 permite, a meu ver, ler o caso sem moralizá-lo, e isso me importa. Se há no aparelho uma tendência conservadora, ninguém escolhe gozar do desprazer a partir de uma liberdade transparente; é a economia pulsional que organiza, sob certas condições, ambivalência intensa, perdas, falhas de ligação, a vitória aparente da repetição. Isso não absolve o sujeito de responsabilidade, mas desloca a ênfase: a tarefa da análise não é repreender quem sofre, e sim tornar pensável o que retorna como ato cego, para então trabalhar a favor das ligações que permitam ao desejo, enfim, arriscar-se no ato.

Encerro voltando à aposta com que comecei. O caso do Homem dos Ratos me parece uma vitrine clínica da metapsicologia de 1920, e o que vejo nela é sempre o mesmo movimento, em variações: uma cena traumática que insiste contra o prazer; uma linguagem que liga e, ligando demais, paralisa; rituais que pretendem salvar e que condenam; uma ambivalência que torna o amor temível; uma economia do tempo que perpetua o adiamento; um gozo paradoxal extraído do desprazer; um luto que se transforma em dívida sem fim. Eros, em todos eles, é a força de ligação que pode ser capturada por Thanatos e posta a serviço do congelamento da vida. E o trabalho analítico, se tem um núcleo, é recolocar Eros a operar como ligação viva: converter a repetição em memória, e a culpa em responsabilidade.

Levo isso para a minha prática como uma espécie de bússola, e digo sem rodeios qual é: sempre que o amor exige regras impossíveis, sempre que o pagamento nunca quita, sempre que a proteção paralisa, desconfio que a pulsão de morte capturou os instrumentos de Eros. Restituí-los à sua função, ligar para que algo novo possa advir, é o que entendo por tratar. O que em 1909 aparecia como enigma moral, e que em 1920 se tornou problema metapsicológico, segue me servindo, mais de um século depois, como guia clínico. E continuo achando, cada vez que releio o caso, que no coração da neurose obsessiva Eros e Thanatos disputam, em silêncio, a direção de um destino, e que, às vezes, a análise consegue mudar quem vence.

Leonardo de Carvalho e Mello

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