O espelho do estômago: uma leitura freudiana de “Lá Embaixo”, de Leonora Carrington
Maio de 1940, Saint-Martin-d'Ardèche. Max Ernst é levado pela segunda vez, sob a escolta de um gendarme armado de fuzil, a um campo de internamento francês. Não se trata ainda da perseguição alemã que viria depois, e a distinção importa, porque quem arranca o companheiro é o país que os abrigava. Leonora Carrington tem vinte e três anos. Chora durante horas na aldeia, depois sobe à casa em que os dois viveram e pintaram e, ao longo de vinte e quatro horas, provoca em si mesma vômitos, bebendo água de flor de laranjeira, com um sono breve entre um espasmo e outro. Não é por essa cena que o livro começa. Ele abre numa segunda-feira, 23 de agosto de 1943, três anos depois da internação, com Carrington voltada para quem a escuta, anunciando a travessia que fará. É por essa cena, porém, que começam os acontecimentos, e é por ela que começo. Ao rememorá-la, Carrington acrescenta uma explicação que nenhum teórico ousaria inventar por ela: seu estômago era a sede daquela sociedade injusta, mas era também o lugar em que ela se unia a todos os elementos da terra. Era o espelho da terra, e o espelho precisava ser limpo das camadas espessas de sujeira, as fórmulas aceitas, para refletir o mundo com fidelidade. E emenda: o reflexo é tão real quanto a pessoa refletida.
Demoro nessa abertura porque ela contém, em miniatura, quase tudo o que o livro fará em seguida. Não há ali comparação. Carrington não diz que sua dor era grande como o mundo, nem que seu corpo parecia carregar a guerra. Diz que o estômago refletia a terra, e age em conformidade com o que diz: purga-o. Naquela cena, a metáfora perdeu o como. A fórmula é achado de leitor, não descrição técnica de Freud, e nenhum texto dele autoriza uma passagem geral da figura de linguagem ao corpo. Entre a palavra e a coisa, algo da distância que costuma nos proteger desabou, e o corpo passou a executar o que, em outro regime psíquico, teria ficado em figura. Se procuro um fio para atravessar Lá embaixo, é este: a história de um mundo que desaba, de um corpo que toma para si o encargo de sustentá-lo e de uma língua que, anos depois, tenta recolher os dois.
Convém dizer o que o livro é, porque a resposta precisa vir antes de qualquer leitura, não depois dela, como advertência tardia. O que leio não é a experiência bruta, nem sequer uma única versão estável dela. É uma sedimentação de versões, línguas, ditados, traduções e revisões. Lá embaixo, Down Below no original, não é romance, não é caso clínico, não é exatamente um livro de memórias. Carrington escreveu uma primeira versão em inglês, em Nova York, em 1942, que se perdeu. Em 1943, no México, três anos depois dos acontecimentos, instada por Pierre Mabille, médico próximo do círculo surrealista a quem o relato se endereça, ditou-o em francês a Jeanne Megnen, mulher de Mabille. O que veio a público no ano seguinte, na revista surrealista VVV, foi ainda outra camada, a tradução inglesa de Victor Llona. O ditado francês sairia depois em Paris, e a própria Carrington reveria o texto em 1987, acrescentando-lhe um pós-escrito. Nenhuma dessas camadas é neutra, e a primeira menos que todas: Mabille, autor de um livro chamado O espelho do maravilhoso, publicado em 1940, não era um ouvido vazio, e é diante dele, e da sua doutrina do maravilhoso, que a palavra espelho vai ser dita. Ao abrir o ditado, Carrington anuncia o que pretende: precisará reviver a experiência, atravessar de novo a fronteira, e conta com quem a escuta para mantê-la lúcida na travessia. A narrativa lhe servirá de máscara e de escudo contra a hostilidade do conformismo. Retenho a fórmula, porque ela desarma de saída qualquer leitura ingênua: não estou diante de um documento espontâneo da loucura, mas de uma segunda travessia, deliberada, armada, endereçada.
Em 1911, Freud publicou as “Notas Psicanalíticas sobre um Caso de Paranoia Descrito Autobiograficamente”, análise das Memórias de um doente dos nervos do presidente Schreber, um homem que ele jamais atendeu. Trabalhou sem acesso clínico, tomou o livro publicado como via de leitura de uma formação delirante e assumiu o procedimento sem constrangimento. Estou, diante de Lá embaixo, em posição análoga, e ela tem os mesmos limites: leio um texto, não escuto uma paciente. Nenhuma associação vem corrigir minhas construções, nenhuma transferência me responde. O que se pode fazer com um livro não é análise, é leitura. Guardadas as proporções, sigo o exemplo: também aqui um relato autobiográfico do delírio, composto por uma inteligência fora do comum, oferece à psicanálise o que a clínica nem sempre oferece, o sistema inteiro, exposto por quem o habitou.
Volto ao corpo, porque é por ele que tudo começa. Depois dos vômitos, Carrington descreve três semanas de regime severo: come pouquíssimo, batatas e salada, trabalha as vinhas, pulveriza enxofre, toma banhos de sol, e registra uma força física que diz não ter conhecido antes nem depois. Quanto mais sua, melhor, porque suar é purificar-se. O primeiro idioma da catástrofe é somático. Penso na “Introdução ao Narcisismo”, de 1914, onde Freud aproxima dois quadros sem os fundir. Na hipocondria, o interesse e a libido concentram-se num órgão do corpo, que passa a ocupar o doente como um objeto o ocuparia. Na parafrenia, nome que o próprio Freud propõe naqueles anos para o que a psiquiatria chamava demência precoce, a libido retirada dos objetos do mundo não se perde, reflui sobre o eu, e a megalomania é um dos destinos desse refluxo. São duas gramáticas vizinhas, não uma, e o texto de 1914 conhece a retirada e a megalomania, não a reconstrução sistemática do mundo. Esta, Freud a reconhece na paranoia de 1911, e ela depende de um mecanismo, o da projeção, que devolve aos objetos, deformada, a libido deles retirada. O sistema de Carrington, com seu mapa, seus pavilhões e sua hierarquia divina, aproxima-se muito mais dessa arquitetura do que do quadro de 1914, de onde tomo apenas a gramática do corpo. E gramática não é explicação: entre as construções metapsicológicas de Freud e a perda de Max, a França caindo, o estômago feito espelho, não há ponte que dispense o passo do leitor. O mundo se esvazia e o estômago se enche de mundo. A frase condensa o meu argumento, não parafraseia Freud, mas é a imagem que o livro impõe.
Há um texto de Freud ainda mais próximo dessa língua, e convém dizer do que ele depende. No ensaio metapsicológico “O Inconsciente”, de 1915, ao tratar da esquizofrenia, Freud observa que ali as representações de palavra recebem o investimento que caberia às coisas, e que as substituições passam a obedecer à semelhança verbal. A isso chama fala hipocondríaca, ou linguagem de órgão. O mecanismo sustenta-se em cadeias verbais precisas: é o caso da moça que, enganada pelo amante, se queixa de estar com os olhos virados. O amante é um vira-olhos, um embusteiro, e a expressão, em vez de qualificar o engano, instala-se no órgão. Sem a cadeia de palavras não há o mecanismo. E num texto vivido entre línguas, escrito, perdido, ditado em francês, publicado em tradução, revisto quarenta e quatro anos depois, essa cadeia não se deixa seguir. Por isso não direi que o estômago-espelho de Carrington seja um caso dessa linguagem. Direi que se deixa iluminar por ela, de longe, com uma diferença que me impressiona: não é queixa, é cosmologia. Sirvo-me, portanto, de formulações que Freud reservou a quadros distintos, a paranoia de Schreber e a esquizofrenia de “O Inconsciente”, sem pretender fundi-los: componho com eles uma grade de leitura, não uma nosografia de Carrington. O órgão não apenas fala. Legisla.
Os atos vêm com a viagem. Convencida pela amiga Catherine a fugir para a Espanha diante do avanço alemão, Carrington passa a noite escolhendo o que levará. Tudo cabe numa mala que traz, sob o seu nome, uma pequena placa de latão gravada com a palavra Revelação, e nunca sei decidir se é o mundo que fornece emblemas ao delírio ou o delírio que requisita o mundo. Vinte quilômetros depois de Saint-Martin, o automóvel para: os freios travam. E aqui aparece uma das frases decisivas do livro, porque nela a Carrington de 1943 nomeia o próprio mecanismo: aquele foi, diz ela, o primeiro estágio de sua identificação com o mundo exterior, eu era o carro. A palavra identificação é dela, e não a tomo no sentido técnico que tem em Freud. O carro travara porque ela própria estava travada entre Saint-Martin e a Espanha. Detenho-me menos no fenômeno do que na formulação. Quem escreve assim escreve três anos depois, de outro lugar, e no entanto recusa-se a traduzir de longe: reconstitui por dentro, com o vocabulário de sua própria travessia. O livro inteiro é feito dessa voz dupla, e é ela, mais do que o conteúdo das visões, que o torna único. O travamento se repete depois, em Andorra, cada vez que ela tenta subir uma encosta, até que o pacto com a montanha se refaça, e só então virão Seo de Urgel, Barcelona e o trem para Madri. A ordem importa, porque é a ordem de um processo, não a de uma tese.
Em Madri, a cosmologia gástrica se politiza. Carrington crê que a cidade é o estômago do mundo e que lhe coube devolver a saúde a esse órgão digestivo. Crê que a guerra é conduzida por via hipnótica, e concentra num holandês de nome Van Ghent os poderes que manteriam a cidade hipnotizada. Dele escreve, sem rodeio, que era seu pai, seu inimigo e o inimigo dos homens. A frase é textual, e é dela. A nota edipiana, porém, não sobe do delírio, sobe de outro lugar. Ainda em Saint-Martin, Catherine, que estivera longamente sob cuidados de psicanalistas, persuadira Carrington de que sua atitude traía o desejo inconsciente de livrar-se, pela segunda vez, do pai, sendo Max o pai que precisava eliminar para viver. Carrington registra a interpretação e recusa-a: acha que a amiga se enganava, e diz que ela a interpretou fragmentariamente, o que é pior do que não interpretar. Acrescenta, contudo, que ao fazê-lo a amiga a restituiu ao desejo sexual. Fico longamente nessa passagem, porque ela é o aviso mais severo que o livro dirige a alguém como eu. Uma interpretação pode ser falsa como verdade e eficaz como ato. E o pior dos ofícios não é o de quem não interpreta, é o de quem interpreta por pedaços. Deixo a chave edipiana exatamente onde o texto a deixa: enunciada por uma amiga, recusada pela autora, produtiva apesar de tudo.
Ao mesmo tempo, e o livro proíbe separar as coisas, a violência que a cerca não é delirante. Numa noite, depois de distribuir seus documentos e seus objetos, Carrington relata ter sido levada por um grupo de oficiais requetés, milicianos carlistas, a uma casa de Madri, e ali violentada por eles, um após o outro. Nomeio-os porque a precisão reforça o essencial: a agressão não vem de uma figura do sistema delirante, vem do aparato político real do país onde ela buscara refúgio. O relato registra o episódio com a mesma voz impassível de tudo o mais, e essa impassibilidade não é indiferença, é provavelmente a única forma de dizer. Ela vaga depois de madrugada, com as roupas rasgadas, perto do Retiro, até ser recolhida por um policial. É fácil errar aqui por dois lados: nem o delírio explica a violência, nem a violência explica o delírio. Mas não deixarei o acontecimento fora da conta. Essa noite se deixa pensar, por analogia, a partir do que “Além do Princípio do Prazer”, de 1920, chama de traumático, o excesso de excitação que rompe a proteção e que o aparelho não consegue ligar. Analogia, não certidão: a economia da efração e da ligação depende de dados que nenhum texto, por mais detalhado, fornece. Tampouco farei do episódio a causa do que se segue. Que ele incida sobre um aparelho já sobrecarregado por perdas, fuga, medo e exaustão, isso o relato deixa ver. Que dele decorra o delírio, isso o relato não autoriza a escrever. Vale notar, para que a cronologia não se perca, que a cena em que ela desce ao quarto de Catherine e lhe pede que lhe olhe o rosto, não vês que é a representação exata do mundo, vem depois disso tudo, já em Madri, e não antes, na estrada. A superfície do corpo tornou-se mapa quando o mundo já a havia atravessado. O mundo de 1940 confirmava, a cada passo, a hostilidade que o delírio proclamava, e essa confluência entre catástrofe psíquica e catástrofe histórica é o que distingue Lá embaixo de qualquer outro documento do gênero.
É o ponto em que o estudo sobre Schreber me serve de bússola. Freud sustenta ali duas teses que releio sempre com espanto. A primeira: o fim de mundo que o paranoico percebe, o crepúsculo e a ruína universal, corresponde a uma realidade psíquica. Retirado o investimento libidinal, o mundo de fato acabou para ele, e o sentimento de fim não mente sobre a economia que o produz. A segunda, mais célebre: a formação delirante, que tomamos por produção patológica, é, na realidade, tentativa de restabelecimento, reconstrução. O paranoico reergue o universo, ainda que às próprias custas, para poder voltar a habitá-lo. O mundo de Schreber seguia de pé, e o privilégio explicativo de Freud era intrapsíquico e libidinal. Em Carrington, as duas catástrofes coincidem: o mundo externo desabava de verdade. Nada do que Freud formulou exige essa coincidência. Nada nela o desmente. Mas ela complica a transposição, e o livro obriga a pensar o que o caso Schreber não obrigava: o que acontece com a tentativa de reconstrução quando a realidade rejeitada é, ela mesma, irrespirável.
A resposta de Lá embaixo é a reconstrução mais minuciosa que conheço na literatura do delírio. Parte dessa minúcia é obra da narradora de 1943, que ordena retrospectivamente o que talvez tenha sido vivido em fragmentos, e a coerência que admiro é também coerência de narração. Convém não alisar demais o relato: há saltos, lacunas, cenas que não se encaixam em nenhum sistema. Declarada incurável pelo doutor Pardo, de Madri, e pelo cônsul britânico, sedada com luminal e com uma anestesia raquidiana, Carrington é entregue, ela escreve, como um cadáver, ao sanatório do doutor Morales, em Santander. Isso se passa em agosto de 1940, e ali ficará até janeiro do ano seguinte. Desperta amarrada por correias ao leito, num despertar de que o relato não poupa a sujeira nem a humilhação. E ali reergue o cosmos com os materiais que tem à mão. Os pavilhões do sanatório tornam-se regiões de um mapa sagrado. Mapa em sentido próprio: a própria Carrington remete o leitor ao desenho que dá as posições de Villa Pilar, Radiografia, Covadonga, Amachu, Abajo, e esse desenho acompanha o texto nas edições que o preservam. E Abajo, Lá embaixo, o maior e mais luxuoso pavilhão da casa, torna-se a Terra, o Mundo Real, o Paraíso, o Éden, Jerusalém. É o lugar aonde ela irá, com plena lucidez, quando tiver atravessado as provas: assim promete o sistema, e a lucidez prometida é peça do sistema, não sinal de que ele já cedesse. Don Mariano Morales, o médico que dirige a casa, e seu filho Don Luis, que a trata, tornam-se Deus e seu Filho. A ela caberá descer como a terceira pessoa da Trindade. E então a enumeração que tenho por centro do livro: sentia, por agência do Sol, que era andrógina, a Lua, o Espírito Santo, uma cigana, uma acrobata, Leonora Carrington e uma mulher.
Releio a lista devagar. Quis ver, nos dois últimos lugares, reservados ao nome próprio e à condição de mulher, um ponto de amarração, um resto de identidade civil que o sistema não dissolve, como se o delírio, ao refazer o mundo, guardasse um lugar de volta. Mas a série não se fecha onde eu queria: logo adiante, Carrington acrescenta que estava destinada a ser, mais tarde, Elizabeth da Inglaterra. O nome próprio não é o último termo. É um termo entre outros, e nem sequer o mais estável, porque até uma soberana histórica pode ser absorvida pela série. Talvez haja ali um resto que resiste. Talvez eu estivesse lendo consolo onde há apenas acumulação. O texto não decide, e não decidirei por ele.
Há ainda o título. O paraíso de Carrington não fica em cima. Fica embaixo. Para chegar ao Éden, desce-se. A topografia religiosa é invertida com uma naturalidade que nenhum programa herético explicaria, porque não se trata de programa: é a direção espontânea que a cura toma dentro do sistema. E relê-se com outros olhos, depois deste livro, a epígrafe que Freud escolheu para A Interpretação dos Sonhos, de 1900, um verso da Eneida de Virgílio, no livro sétimo, posto na boca de Juno: se não posso dobrar os poderes de cima, moverei o Aqueronte. A psicanálise também nasceu apontando para baixo, para o que jaz sob a superfície da vida desperta. Não digo que Carrington ilustre Freud, porque ilustrações diminuem os dois lados, e os dois baixos não são o mesmo baixo: o de Freud é direção de método, subsolo tópico, metáfora de uma investigação. O de Carrington é topografia concreta, um pavilhão com janelas, um lugar aonde se chega descendo uma alameda. A convergência é lateral, poética, não correspondência teórica. Digo apenas que os dois gestos apontam na mesma direção, e que talvez seja essa a razão de o livro parecer, apesar de tudo o que descreve, estranhamente familiar: aqui também a verdade se procura embaixo.
Do estudo sobre Schreber não transponho o núcleo etiológico, a defesa contra a moção homossexual, que Freud situou no centro daquele caso. Nada em Lá embaixo autoriza a simetria, e forçá-la trairia os dois textos: tomaria de Freud a conclusão sem o material que a sustentou, e imporia a Carrington uma chave que seu relato não fornece. O que transponho é a sequência retração, catástrofe, reconstrução, e ela não existe, em Freud, como estrutura solta à espera de casos: nasceu dentro daquela leitura particular. Ao destacá-la, converto-a em empréstimo heurístico, instrumento que orienta, não lei que cubra. Há ainda uma assimetria fecunda: Schreber escreveu de dentro da instituição, para reaver sua capacidade civil, e suas memórias são peça de um processo. Carrington dita de fora, livre, três anos depois, e depois de haver escrito e perdido uma primeira versão. Seu texto é a reconstrução de uma reconstrução. A palavra elaboração não serve aqui: em “Recordar, Repetir e Elaborar”, de 1914, ela nomeia o trabalho sobre as resistências no interior da transferência, inseparável do dispositivo da análise, e entre Carrington e o casal Mabille não há situação analítica que se possa demonstrar. Que houvesse transferência, no sentido largo em que a palavra acompanha qualquer endereçamento, não sei nem nego. O que falta é o dispositivo. O que está em cena talvez não tenha nome pronto: uma rememoração deliberada, endereçada, feita para que a travessia narrada se deposite no lugar da travessia sofrida. Chamo-a de reinscrição narrativa, e deixo a palavra elaboração onde ela pertence.
Chego às páginas mais difíceis. O tratamento de Santander incluiu o Cardiazol, droga convulsivante então em voga, precursora do eletrochoque, que induzia quimicamente crises do tipo que a medicina do tempo chamava grande mal. O método assentava-se na convicção, corrente naqueles anos, de que a convulsão provocada tivesse efeito terapêutico sobre certas psicoses. A racionalidade era médica e datada, e não a julgo anacronicamente como técnica. Mas o relato registra, do lado de quem a sofreu, uma experiência brutal. Ela a descreve por dentro: as caretas que se repetem pelo corpo inteiro, como se o rosto se multiplicasse na carne. À segunda injeção, diz algo que desarma: organizei a minha própria defesa. Fecha os olhos, para subtrair-se à dor mais insuportável, que não era a convulsão, era o olhar dos outros. Releio essa defesa mínima, essa soberania de pálpebras, e penso em “Neurose e Psicose”, de 1924, onde Freud escreve que o delírio se encontra aplicado como um remendo no lugar em que originalmente se abrira uma fenda na relação do eu com o mundo externo. E penso no texto irmão do mesmo ano, “A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose”, onde acrescenta que a psicose não se limita a rejeitar a realidade: trabalha para pôr outra no lugar. O Cardiazol não lê o remendo: rasga-o de novo. A imagem do rasgo é construção minha, e os textos de Freud nada dizem de terapias convulsivantes, nem deles se deduz juízo sobre um método que a época tinha por promissor. Leio um relato que registra, com exatidão quase insuportável, o que o método fazia a quem o sofria.
E o que o texto registra é ainda mais vertiginoso do que uma denúncia: o sistema delirante incorpora a própria tortura. Carrington crê atravessar torturas purificadoras a caminho do Conhecimento Absoluto, cuja posse lhe abriria, enfim, as portas de Lá embaixo. A dor vira etapa. O médico que a inflige vira figura divina. A instituição é digerida pelo delírio e convertida em cosmologia. Não digerida inteira: há no relato zonas de puro padecimento que nenhum sistema recolhe e que ficam no texto como terão ficado no corpo, por assimilar. As correias, a imundície do despertar, o terror que antecede a convulsão. Mas a tentativa de cura delirante engole boa parte da cura médica e a põe a seu serviço. Diante disso, a pergunta não é retórica: quem cura quem, naquela casa? O Cardiazol, que arromba, ou o delírio, que reconstrói, ainda que reconstrua uma prisão?
A lucidez, quando volta, não volta como triunfo. E volta ali mesmo, no sanatório, depois da última injeção, quando a levam enfim a Lá embaixo, ao pavilhão real, aquele que o delírio prometia como Éden. Ela anota o desencanto com uma secura que dói mais do que qualquer lamento: recuperei a lucidez, meus objetos cósmicos haviam perdido a significação. Os objetos cósmicos eram cremes de noite, um polidor de unhas, utensílios de toucador que o sistema investira de função sagrada e que, de um golpe, voltam a ser coisas. Um homem chamado Etchevarría lhe desmistifica, palavra dela, os mistérios: a desmontagem vem também de fora, peça a peça, pela mão de outro. E não vem apenas pela conversa. É ele quem, depois de longos diálogos sobre o desejo, a aconselha a procurar um homem da casa, e ela procura, e deixa de se interessar por Don Luis. A saída do sistema passa por onde o sistema não passava: por um corpo que volta a desejar fora da cosmologia. Detenho-me nessa passagem porque ela inverte o que se espera: a saída do delírio é narrada como perda, como empobrecimento do mundo. Há, nessa desmontagem de um mundo reconstruído, um trabalho aparentado ao que “Luto e Melancolia”, de 1917, descreve: desinvestir, um a um, os objetos em que a libido se alojara. Aparentado, não idêntico, e a diferença é grande. Freud define o luto pela perda de um objeto amado, sob a pressão da prova de realidade, num trabalho lento, peça por peça. O que Carrington relata é antes a restituição de uma significação ordinária às coisas, abrupta, ajudada de fora, sem o vagar do luto. Fico, ainda assim, com a imagem, porque o livro a sustenta melhor do que a teoria: sair da loucura pode ser narrado, aqui, como uma espécie de luto. E o relato tem a honestidade de não o disfarçar de alta médica.
Resta a lição mais séria do livro, e recorro, para formulá-la, ao último Freud. Em “Construções em Análise”, de 1937, ele escreve que os delírios dos doentes lhe parecem equivalentes das construções que edificamos no tratamento, tentativas de explicação e de cura, e que devem sua força de convicção ao fragmento de verdade histórica que inserem no lugar da realidade rejeitada. A verdade histórica, em Freud, é a do sujeito: o retorno, em forma desfigurada, de algo efetivamente vivido e depois perdido para a memória, e o que ele tem em vista é a pré-história infantil, não uma leitura certeira da atualidade. Quem promete decifrar no delírio um diagnóstico do século já saiu de Freud sem avisar. O delírio de Carrington dizia que a guerra era conduzida hipnoticamente, que multidões obedeciam a poderes que as manejavam, que o estômago do mundo estava doente. O companheiro arrancado, a perseguição real, a Europa em transe digerindo corpos não são, em rigor, aquele vivido antigo e perdido de que fala Freud: são a atualidade que incidia sobre ela. Há, é verdade, um vivido antigo à espreita, o pai, a casa inglesa, a menina destinada a estrear em sociedade, e o sistema o convoca quando faz de Van Ghent um pai e de si mesma uma soberana. Os dois registros se superpõem, e a superposição é hipótese minha, não de Freud. A verdade guardada pelo delírio é sempre deformada, e decifrá-la não é sancioná-la. A instituição de então tratava, com os meios em que confiava, o que entendia por doença. Vivido do lado de dentro, e é desse lado que o relato fala, o tratamento calava a fala. A psicanálise ensina a tratá-la como texto a ler. E é preciso ser justo até o fim: Freud não deixou para as psicoses uma técnica comparável à das neuroses, reconheceu ali os limites do seu método, e ler um delírio não substitui o cuidado de quem o padece. O que o livro exige não é a troca de um tribunal por outro. É uma escuta que não valide a convicção como profecia, não a reduza a erro e não se ofereça como bastando.
Devo ainda o acerto de contas com a romantização, que ronda este livro desde a origem. Certa recepção surrealista quis ver na travessia de Carrington a experiência pura que o movimento apenas encenava. É preciso distinguir: foi desse mesmo círculo, com Mabille à frente, que veio o impulso para que o relato existisse, e o livro deve a ele a sua existência. O texto, porém, resiste a essa apropriação tanto quanto resiste ao jaleco. Há mesmo o instante em que ela declara não delirar, estar jogando, e devolve a pergunta: quando deixarão de jogar com ela? É um instante, um lance numa negociação com o médico, não uma tese sobre tudo o que viveu. E nem por isso menos revelador da inteligência que sobrevivia, intacta no seu gume, ao sistema que a envolvia. As correias, o terror, a violação, a sujeira, a solidão absoluta não se deixam estetizar, e Carrington os narra sem autopiedade, mas também sem glória. Se o delírio é tentativa de cura, é uma tentativa que não devolve plenamente o mundo comum. O universo que ergue não é deserto, habitam-no médicos e doentes, divindades e utensílios, o pai e o inimigo. Mas não se deixa partilhar segundo os critérios ordinários da realidade comum: esplêndido, permanece fechado a quem não o habite pelos seus termos. O livro não celebra a loucura nem a abjura. Percorre-a. E resisto, por fim, à tentação de dizer que a saída veio de um ato. A cronologia não a sustenta. A lucidez veio antes, no sanatório, como perda, e a saída física dependeu ainda de parentes e de trâmites que não passaram por ela. O ato vem depois, e salva outra coisa. Ele já não pertence ao ditado de 1943: quem o conta é a camada tardia do livro, o pós-escrito que a própria Carrington ditou em 1987. Levada a Lisboa, onde a família planejava novo internamento, agora num sanatório na África do Sul, Carrington escapa à vigilância dos que a acompanham e refugia-se na embaixada do México, onde reencontra Renato Leduc, que conhecera em Paris. O que o ato interrompe não é o delírio. É o circuito que voltava a fechar-se sobre ela. O casamento de conveniência, a travessia do Atlântico, Nova York e depois o México, o mesmo pós-escrito recolhe. Encerro, porém, onde o ditado de 1943 encerra, antes de qualquer apoteose, e faço bem em imitar-lhe a contenção.
Nomeio, por fim, os limites desta leitura. O texto que leio é uma camada sedimentada: uma experiência vivida entre línguas, escrita uma primeira vez em inglês e perdida, ditada em francês três anos depois, transcrita por outra mão, publicada primeiro em tradução, revista pela autora quase meio século mais tarde. Não atravesso essas mediações, trabalho nelas, e parte da coerência que atribuo ao sistema talvez seja obra delas. Há opacidades que nenhuma gramática freudiana dissolve: por que a água de flor de laranjeira, por que o Sol como agente, por que a acrobata na lista das divindades. Não sei, e desconfio de quem saiba. Sustento também a oscilação maior, que o livro se recusa a resolver: a voz que narra é lúcida e, no entanto, não renega em bloco a verdade do que viveu. Descreve o sistema por dentro, com precisão de cartógrafa, sem o sarcasmo de quem se envergonha do que foi. Cartógrafa em sentido próprio: o mapa está no livro. Nem documento de doença, nem evangelho de visionária. Leio o reflexo, não a pessoa. Mas a própria Carrington advertiu, desde a primeira página, que o reflexo é tão real quanto a pessoa refletida.
Freud extraiu de um livro o que a clínica das neuroses não lhe mostrava. Pergunto-me, ao fechar este, o que ele deposita em quem o lê com os instrumentos que Freud deixou. Há mundos reconstruídos, versões datadas, ordenadas, quase belas, daquilo que quase destruiu quem as conta. Diante delas, o que se escuta: a doença, a cura, ou esse terceiro trabalho, o da narrativa, que não coincide com nenhuma das duas? E como acolher o fragmento de história vivida que certas convicções desesperadas guardam, deformado, história de um sujeito e não profecia de uma época, sem sancioná-lo nem extirpá-lo, sem repetir, em miniatura civilizada, o gesto que prefere calar a fala a lê-la, e sem interpretar por fragmentos, o que é pior do que não interpretar? Entre a convulsão que silencia e a leitura que sabe não bastar, por onde passa uma escuta que não seja nem uma coisa nem outra?
Leonardo de Carvalho e Mello