O pequeno Hans e a sexualidade infantil em Freud

O caso do pequeno Hans

Volto ao pequeno Hans com a consciência de que volto a um lugar muito visitado. O caso que Freud publicou em 1909, sob o título "Análise de uma fobia em um menino de cinco anos", é um daqueles textos que acho que conheço antes mesmo de reler, e talvez seja por isso que eu insista em relê-lo. O que me interessa desta vez não é repetir que se trata do primeiro caso documentado de análise infantil, embora seja, e isso não é pouca coisa. O que me interessa é perguntar o que esse menino ainda tem a me ensinar sobre o modo como um sintoma se forma, se sustenta e, no melhor dos casos, se desfaz.

Herbert Graf, o nome real do pequeno Hans, era filho de um musicólogo vienense próximo do círculo freudiano. Aos quatro anos e nove meses desenvolveu uma fobia de cavalos tão intensa que o impedia de sair à rua. O que torna o caso singular, e a mim sempre me deteve, é sua configuração terapêutica improvável: quem conduziu o tratamento foi o próprio pai, sob supervisão de Freud, que viu o menino pessoalmente uma única vez. Esse arranjo, que hoje pareceria no mínimo discutível, teve um efeito colateral precioso: produziu um registro minucioso do desenvolvimento psicossexual de Hans desde os três anos de idade, um material clínico de uma riqueza que dificilmente se obteria de outro modo.

É através da fobia que Freud mostra algo que, para a época, era quase escandaloso: que as estruturas do inconsciente, o recalque, o retorno do recalcado, a angústia de castração, o conflito edípico, as substituições simbólicas, já operam na infância, e que o sintoma é desde sempre uma formação de compromisso. Prefiro insistir nesse ponto porque ele me parece o coração do caso: o sintoma de Hans não é um defeito a ser corrigido, é uma solução. Uma solução sofrida, é verdade, mas uma solução. E o que a análise faz não é suprimi-la à força, mas oferecer ao menino as condições para que aquilo que se exprimia no medo possa ser atravessado pela escuta, transformado em fantasia narrável e inserido numa cadeia simbólica em que ele, Hans, possa enfim se reconhecer como sujeito.

A fobia de Hans, uma histeria de angústia na nomenclatura de então, era o medo de que os cavalos o mordessem ou caíssem. Ela irrompe num contexto preciso: o nascimento da irmã Hanna, ocorrido quando Hans tinha três anos e meio, ainda reverberava em sua vida psíquica, e o menino acabara de presenciar a queda, possivelmente a morte, de um cavalo na rua. Antes da fobia, o cavalo já lhe interessava, já o atraía. E é justamente essa anterioridade que me parece reveladora: o objeto fóbico não vem de fora como um susto qualquer; ele é fabricado a partir de um objeto que já estava investido. A ansiedade se desloca sobre o que antes era curiosidade, e o cavalo passa a condensar, num só vulto, o que Hans deseja e o que teme. A fobia defende e denuncia ao mesmo tempo: encobre o desejo inconsciente no exato gesto em que o revela.

Hans tinha uma curiosidade sexual intensa, daquelas que não dão trégua aos pais. Perguntava sobre o órgão genital masculino, que chamava de "faz-pipi", comparava o seu com o dos outros, gente e bicho, e se masturbava com um desembaraço que provocou, da parte da mãe, uma ameaça de castração. Essa ameaça não é um detalhe: é o componente real, externo, que vai dar contorno ao seu complexo de castração. Sem ela, a angústia de Hans seria outra coisa.

O caso é, antes de tudo, uma ilustração do enlace entre o complexo de Édipo e a angústia de castração. Hans amava a mãe sem disfarce, queria dormir com ela, e nutria pelo pai a ambivalência clássica: admiração e afeto de um lado, hostilidade e o desejo de que ele "caísse e morresse" de outro. A leitura de Freud é conhecida, e eu a subscrevo. A fobia de cavalos desloca a angústia de castração, e o medo de ser mordido figura o medo de ser castrado pelo pai como punição pelos desejos incestuosos dirigidos à mãe. O cavalo é o pai, e é também o que o pai pode fazer.

O tratamento se deu, no fundo, por meio de conversa. Hans era encorajado a dizer seus medos, seus sonhos, suas fantasias, suas teorias. O momento decisivo foi o encontro com Freud, em que este interpretou diante do menino a ligação entre o medo dos cavalos e a ambivalência em relação ao pai. O desfecho foi tido como bem-sucedido: a fobia cedeu aos poucos, e Hans construiu uma relação mais leve com ambos os pais, o que Freud leu como uma resolução satisfatória do Édipo. E há aqui um epílogo que acho bonito de registrar: Herbert Graf tornou-se um diretor de ópera de carreira sólida e, em entrevistas de 1972, já adulto, não relatava sequelas significativas nem da fobia nem do tratamento. A criança que tinha medo de sair à rua passou a vida pondo em cena, num palco, os destinos do desejo. Não consigo deixar de achar que há algo de justo nisso.

Não dá para ler Hans sem ter ao lado o segundo dos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. É ali que Freud faz a afirmação que lhe custou caro: a criança não é o ser assexuado que sua época queria que fosse. Existe uma sexualidade infantil, com características próprias, distinta da adulta, mas nem por isso menos real ou menos intensa. Hans funciona, em larga medida, como a carne que veste esse osso teórico: o menino que demonstra, em ato, o que Freud havia proposto no papel.

Começo pelo auto-erotismo, porque é dele que tudo parte. A sexualidade infantil é, no início, auto-erótica: busca satisfação no próprio corpo, nas zonas erógenas, e não num objeto externo, como virá a ser na maturidade. Freud localiza na sucção sem fim nutritivo, o polegar na boca quando já não há fome a saciar, a primeira manifestação sexual: uma atividade que nasce colada à alimentação e logo se emancipa, buscando prazer por si mesma. O bebê quer repetir um prazer já provado, e para isso não precisa de mais ninguém. Há aqui, em germe, toda uma teoria da repetição que o próprio Freud só desdobrará anos depois, mas não me adianto.

O desenvolvimento psicossexual atravessa fases, cada uma sob a primazia de uma zona erógena. A oral, ligada de início à alimentação. A sádico-anal, articulada ao controle esfincteriano e ao prazer que ele comporta. A fálica, centrada no órgão genital masculino. O período de latência, em que as pulsões são em parte sublimadas. E, por fim, a fase genital, com a organização madura na puberdade. Faço questão de sublinhar, porque é algo que se esquece, que essas fases não são gavetas estanques: elas coexistem, se sobrepõem, e o que se descreve é apenas a predominância de cada uma em seu tempo. Hans exibe traços de várias delas ao mesmo tempo, e é melhor assim, porque é assim que a clínica os encontra.

Há ainda dois pontos do segundo ensaio que Hans encarna de modo quase didático. O primeiro é a investigação sexual infantil: essa curiosidade intelectual que a criança dirige às questões sexuais, fazendo perguntas e construindo teorias sobre o nascimento, sobre a diferença entre os sexos, sobre o que se passa entre os adultos. É uma pesquisa de verdade, conduzida com os recursos cognitivos de que a criança dispõe, e Hans é um pequeno pesquisador incansável. O segundo são as teorias sexuais infantis propriamente ditas, as explicações que a criança fabrica a partir de suas observações: a teoria da universalidade do pênis, segundo a qual todos o possuem; a teoria cloacal, segundo a qual os bebês nascem pelo intestino ou pelo umbigo; a concepção sádica do coito, em que o ato sexual aparece como agressão. Essas teorias dizem tanto dos limites cognitivos da criança quanto da pressão de suas próprias pulsões, e é essa dupla determinação que as torna tão interessantes.

Por fim, o complexo de castração, que arma boa parte do que vem depois. A percepção da diferença anatômica entre os sexos, somada às ameaças ligadas à masturbação, produz o medo da perda do órgão genital como punição. Esse complexo é decisivo na estruturação psíquica e, em particular, na saída do Édipo. Guardo o conceito para retomá-lo com Hans, onde ele aparece com uma nitidez que poucos casos oferecem.

Se há um traço de Hans que me encanta, é a obstinação investigativa. Ele não aceita as respostas prontas. Começa aderindo à história da cegonha, como toda criança bem treinada, mas logo a confronta com o que viu e ouviu: a barriga crescida da mãe antes do parto, as bacias de sangue no quarto depois dele. E então fabrica suas próprias hipóteses: a cegonha traz os bebês em caixas, ou então os bebês são resultado de uma ingestão e saem pelo ânus como um "Lumpf". São teorias que costuram a fábula oficial com a observação crua, e nisso ilustram com precisão o que Freud descreve sobre a formação das teorias sexuais infantis. O que me parece notável é que Hans não está delirando: ele está raciocinando com os dados que tem. A teoria é errada, mas o método é impecável.

As perguntas se acumulam e quase todas convergem para o mesmo enigma. "Mamãe, você tem um faz-pipi?", ele indaga, observando-a. E depois: "A cegonha vai trazer um bebê? Onde ela o guarda? Como a cegonha abre a caixa?" Desde os três anos, comparava o tamanho do seu órgão com o de pessoas e animais, queria ver o "faz-pipi" da mãe e o da irmã, e chegava a distinguir o animado do inanimado pela presença ou ausência desse atributo. Uma pequena metafísica genital, se me permite a expressão.

A teoria da universalidade do pênis aparece numa frase que vale por um tratado. Diante da irmã recém-nascida sendo banhada, comenta: "Mas o faz-pipi dela ainda é bem pequeno. Quando ela crescer, ele vai aumentar, não é?" Não há, na cabeça de Hans, a possibilidade de um corpo sem pênis; há apenas pênis em diferentes estágios de crescimento. A diferença sexual ainda não foi admitida, e admiti-la terá um preço.

Há um detalhe que me parece subestimado e ao qual gosto de voltar: a importância que Hans dá a duas peças de roupa da mãe, uma calça preta e uma calcinha amarela. Tenho para mim que esses objetos trazem todos os ingredientes do que poderia, mais tarde, tornar-se um fetiche. É provável que Hans, em sua pesquisa, tenha visto a mãe se despindo dessas roupas e que, ao tentar alcançar a visão do genital, tenha sido detido no caminho pela proibição e pelo recalque, fixando-se então na calça e na calcinha em vez do que elas cobriam. Assim ele pode seguir imaginando o genital feminino como masculino, sem ter de encarar a falta que o aterroriza. O fetiche, nessa leitura, é um monumento erguido no exato ponto em que o olhar foi barrado.

E há o Hans perverso polimorfo, no sentido estritamente freudiano e nada moralista do termo: voyeur das funções excretoras alheias, exibicionista por sua vez. A compulsão à exibição me parece ligada ao complexo de castração: exibir é afirmar a integridade do genital masculino, é dizer "está aqui, intacto". E a ambivalência que percorre todas as suas relações, com os pais como com os amigos, dá a ver aquele par que Freud considera a mais frequente e significativa das perversões: o sadismo e o masoquismo, lado a lado, dirigidos por vezes ao mesmo objeto.

O auto-erotismo, esse, Hans confirma com uma franqueza que comove. O pai relata: "Flagrei Hans com a mão no pênis. Ele me disse: 'É tão bom, sabe?'" Não há aí culpa, não há vergonha, ainda. A vergonha virá depois, e virá de fora. Aos três anos e meio, flagrado pela mãe, ouve dela a ameaça que organizará boa parte de seu sofrimento: "Se você fizer isso, chamarei o Dr. A. para cortar fora o seu faz-pipi. E então, com o que você faria pipi?" É instrutivo acompanhar a sequência: uma masturbação inicialmente sem culpa, depois recalcada sob a ameaça materna. É, em miniatura, todo o processo de instalação das inibições sexuais que Freud descreve no segundo ensaio.

O Édipo já está todo aqui. O desejo de dormir com a mãe, a fantasia de afastar o pai. Numa delas, Hans conta: "Papai estava longe, e eu estava na cama com mamãe." Perguntado sobre o que fazia ali, responde com uma simplicidade desarmante: "Eu dormia com ela." E noutra, mais reveladora: "Eu estava com você no trem, e papai estava na plataforma. Quando o trem começou a andar, papai ficou lá, e nós fomos embora." O pai abandonado na plataforma. É difícil imaginar figuração mais econômica do desejo de eliminação do rival. O amor pela mãe transborda nas perguntas mais diretas: depois do banho, "Por que você não pega no meu faz-pipi?" O desejo incestuoso não se esconde; ele apenas ainda não sabe que deveria se esconder.

Quanto ao complexo de castração, ele se monta diante dos olhos de quem lê. A ameaça materna fornece o componente real, e a percepção de que a irmã não tem pênis fornece a confirmação que faltava: a castração não é só uma ameaça, é algo que, ao que parece, já aconteceu com alguém. O temor se desloca para os cavalos, que representam o pai. "Tenho medo que os cavalos caiam" e "tenho medo que os cavalos me mordam" são, ambas, expressões simbólicas do medo de ser castrado. Cair e morder: o pai que tomba, quando o desejo de derrubá-lo se volta contra o próprio Hans em forma de medo, e o pai que pune, a mordida que arranca.

As outras fases não desaparecem sob o Édipo; convivem com ele. A anal se manifesta numa constipação tenaz: Hans comia muito, retinha as fezes, precisava de laxante, e quando lhe vinha a vontade de evacuar enquanto brincava, esperneava para continuar retendo, exibindo sem disfarce o prazer excrementício e o gozo do domínio esfincteriano. A fálica, por sua vez, é o próprio tempo do caso: a preocupação incessante com o órgão genital, o seu e o dos outros, e a crença de que todo ser animado possui um "faz-pipi" situam Hans em cheio nessa organização. É um menino fálico em conflito edípico atravessado por restos anais e orais, e é essa espessura, essa não-pureza, que faz dele um caso vivo e não um diagrama.

Não quero passar adiante sem dizer o óbvio que às vezes se cala: Hans foi, para Freud, uma confirmação. Num momento em que a sexualidade infantil era ainda uma hipótese ousada e mal recebida, as observações registradas pelo pai validavam, em campo, o que o segundo ensaio sustentara no plano teórico. O texto "Sobre as teorias sexuais infantis", de 1908, viria refinar esse estudo, isolando três teorias básicas: a primazia do falo, a teoria da gestação por ingestão e a fantasia do nascimento pela via anal ou pelo umbigo. Todas as três comparecem em Hans. É quase como se o menino tivesse lido Freud antes de Freud, ou, mais exatamente, como se Freud tivesse escutado em Hans o que já intuíra em si e em seus pacientes adultos.

Há uma anacronia produtiva em ler o caso Hans, de 1909, à luz de "Recordar, Repetir e Elaborar", que Freud só escreveria em 1914 como parte das Novas Recomendações sobre a Técnica. Assumo essa anacronia de propósito, porque o caso, lido para trás a partir do texto técnico, ganha uma legibilidade que talvez não tivesse de outro modo. Os três processos que Freud articula em 1914, recordar, repetir, elaborar, descrevem o que se passa no tratamento, e Hans, sem saber, já os havia encenado todos.

Recordar, no sentido psicanalítico, não é o que se entende por memória no dia a dia. É trazer à consciência o que foi recalcado e, por isso, tornado inacessível à rememoração comum. Freud é honesto quanto aos limites disso, sobretudo no que toca à primeira infância. Há, escreve ele, "um tipo especial de vivências muito importantes, que ocorreram em épocas muito precoces da infância e que na época foram vividas sem compreensão, mas depois, a posteriori, foram entendidas e interpretadas". Essa noção de a posteriori me parece uma das mais finas de toda a sua obra: a experiência precoce não significa nada no momento em que ocorre, e só adquire sentido, e poder patogênico, retroativamente. A outra limitação é a resistência, que barra ativamente o acesso ao recalcado, e que Freud articula numa fórmula que vale a pena guardar: "quanto maior a resistência, tanto mais o recordar será substituído pelo atuar". Quem não pode lembrar, age.

E aqui chego ao conceito que considero o mais original do texto: a repetição. O paciente, diz Freud, "não reproduz o material recalcado como lembrança, mas como ação; ele o repete, naturalmente sem saber que o repete". A repetição se dá sobretudo na transferência, onde os padrões infantis e os modos de relação com as figuras do passado são reencenados na relação com o analista; mas extravasa a transferência e se espalha pela vida toda, nos vínculos, nas escolhas, nos padrões de conduta que o sujeito reedita sem cessar. O traço que me parece decisivo é o caráter compulsivo: não se repete por escolha, repete-se impelido por uma força inconsciente, e repete-se mesmo o que faz mal, sobretudo o que faz mal. Freud levaria essa intuição muito mais longe em Além do Princípio do Prazer, de 1920, ligando a compulsão à repetição à pulsão de morte, mas isso é outra história e não a contarei aqui. O que me importa é o giro técnico que ele opera: a repetição, que à primeira vista é obstáculo, pode tornar-se instrumento. Reconhecida e interpretada, ela se converte em via de acesso ao que não pôde ser lembrado.

A elaboração, Durcharbeitung, é para mim o conceito mais difícil e o mais importante dos três. É o trabalho psíquico, demorado e não linear, de vencer as resistências e integrar o recalcado. Freud insiste na sua temporalidade própria: "deve-se dar tempo ao paciente para que ele se aprofunde na resistência agora conhecida, para elaborá-la, para superá-la". Não há atalho. Não basta a interpretação intelectual, não basta o insight súbito; é preciso sustentar a repetição, interpretá-la, deixar que o sujeito volte muitas vezes ao ponto de sua angústia, pelo sintoma, pela transferência, pela vida cotidiana, até que possa construir uma narrativa simbólica que lhe permita, enfim, apropriar-se do próprio desejo. Elaborar é fazer passar para a fala o que se repetia no ato; é transformar o que retornava como sintoma em algo que o eu possa, ainda que com flexibilidade e sem domínio total, assimilar.

A transferência, nesse arranjo, é o palco de tudo. Freud a define como "uma região intermediária entre a doença e a vida real, através da qual se efetua a transição de uma para a outra", e aponta sua dualidade constitutiva: ela é, ao mesmo tempo, resistência, porque substitui a lembrança pela repetição, e oportunidade, porque atualiza na relação com o analista os padrões inconscientes, tornando-os acessíveis à interpretação. É essa ambivalência da própria transferência, e não um suposto vínculo idealizado, que faz dela o instrumento central da cura.

Como esses três processos comparecem num menino de cinco anos? Começo pela recordação, que é o caso mais delicado, porque Hans quase não pode recordar. Ele tinha acesso limitadíssimo às memórias da primeira infância, sobretudo às vivências pré-verbais ou às que ocorreram quando seu aparelho psíquico ainda era imaturo. Não conseguia recordar conscientemente o que o nascimento de Hanna provocou nele aos três anos e meio: podia relatar os fatos, mas não tinha acesso ao ciúme, ao desamparo, à rivalidade que aquilo despertou. Tampouco recordava as primeiras manifestações de sua curiosidade sexual e as ameaças de castração que recebeu na mesma época. Essas experiências, decisivas para a fobia, estavam fora do alcance da recordação direta. E no entanto algo da recordação acontecia, em formas adaptadas ao psiquismo infantil: a própria curiosidade incessante de Hans, o seu perguntar sem fim, eu leio como uma tentativa de recordar e dar sentido a experiências que não foram processadas nem simbolizadas. Perguntar, para Hans, era uma maneira de lembrar o que não podia lembrar.

Tomo um exemplo que adoro: o sonho das girafas. Hans sonha com duas girafas, uma grande e uma amassada. No sonho, a girafa grande, o pai, grita e vai embora; e Hans se apodera da girafa amassada, a mãe, sentando-se sobre ela. É difícil pedir uma figuração mais transparente do conflito edípico: afastar o pai que protesta, apossar-se da mãe. Esse sonho me parece, ele próprio, uma tentativa de recordar e elaborar simbolicamente o que estava na base da fobia. E há a recordação que se reconstrói depois, a posteriori: os fatos ligados ao parto de Hanna, os gemidos da mãe, o médico parteiro com sua maleta, as bacias de sangue, voltariam mais tarde para pôr em xeque a história da cegonha e ajudar Hans a compreender como, afinal, se nasce. A verdade chega tarde, e chega em pedaços, mas chega.

A repetição, em Hans, tem na fobia sua manifestação mais pura. O medo recorrente e compulsivo dos cavalos é, na letra de Freud, exatamente isto: um material recalcado que não se reproduz como lembrança, mas como ação. Hans não lembra o conflito; ele o repete, e o repete no corpo, na recusa de sair de casa, no temor que volta sempre. O medo de ser mordido repete, deslocado, o temor da castração paterna; o medo de que o cavalo caia repete o desejo recalcado de que o pai caia e morra. A repetição não é só patológica, porém. Ela também trabalha. Hans brinca de "ser cavalo": relincha, corre, morde o pai. Nessa brincadeira ele repete o conflito, mas já num registro que permite alguma coisa: identifica-se com o objeto temido e, ao mesmo tempo, descarrega contra o pai a agressividade que de outro modo o sufocaria, agressividade que também aparece na fantasia de chicotear os cavalos. E quando brinca de cuidar de filhos imaginários, repete, por não poder recordar, os prazeres de ter sido ele mesmo cuidado quando bebê, prazeres reavivados ao ver a irmã receber os cuidados que antes eram só seus.

A transferência, que Freud chama de "um fragmento da repetição", também se dá em Hans, ainda que num setting esquisitíssimo, em que o analista é o próprio pai sob supervisão. A ambivalência para com o pai, amor e hostilidade, admiração e rivalidade, se repete e se trabalha nas próprias interações do tratamento. Há um episódio que condensa tudo num só gesto: Hans bate na mão do pai e, em seguida, a beija. Bater e beijar, na mesma sequência, sem solução de continuidade. O desejo de agredir o rival edípico e, colado a ele, o amor e a culpa por esse mesmo desejo. Não conheço ilustração mais econômica da ambivalência.

Quanto à elaboração, o caso me parece exemplar justamente por mostrá-la como processo, e não como lampejo. O momento de virada vem depois da interpretação que Freud oferece no único encontro: a partir dali, Hans começa a produzir fantasias mais construtivas. Fantasia, por exemplo, que se casaria com a mãe e teria filhos com ela, enquanto o pai se casaria com a avó paterna. A fantasia ainda é edípica, Hans não virou outra pessoa, mas já é uma elaboração mais sofisticada, que busca conciliar o amor pela mãe com o amor pelo pai em vez de eliminá-lo. O pai não é mais jogado para fora do trem; é recolocado, casado com a avó, num arranjo que comporta a todos. É uma solução de compromisso, e as melhores soluções psíquicas costumam ser exatamente isso.

Outro episódio que me parece decisivo é a fantasia do encanador. Hans conta que um encanador veio e trocou seu "faz-pipi" pequeno por um grande. A imagem admite várias leituras ao mesmo tempo, e é essa sobredeterminação que a torna rica: é uma resposta à angústia de castração, em vez de perder o órgão, ganha-se um maior; é uma fantasia de crescimento e potência; e é uma identificação com o pai. Freud lê nela o desejo do menino de tornar-se como o pai, de ter um falo grande que lhe permita ocupar o lugar de autoridade e merecer o amor da mãe. Ao elaborar essa fantasia, Hans deixa de apenas repetir o conflito de modo mudo e começa a simbolizá-lo, criando imagens intermediárias entre o afeto e a linguagem. O encanador é o pai sob outra forma, não mais o rival a abater, mas o modelo a alcançar.

E é assim, pela elaboração, que a fobia vai se afunilando. De todos os cavalos, Hans passa a temer apenas os cavalos grandes com focinheiras pretas, o bigode do pai, é difícil não ver, e as carruagens de carga ou de mudança, ao mesmo tempo em que se amplia o território onde pode circular sem medo, sair para passear, brincar no armazém. Gosto de descrever esse movimento como uma travessia: da angústia sem nome à construção de fantasias e brincadeiras, do medo do cavalo à imagem do encanador, das perguntas obsessivas às respostas construídas, da recusa de sair de casa à narrativa de ter filhos com a mãe. O sintoma não foi arrancado; foi atravessado.

Faço questão de marcar um ponto, porque ele me parece o ensinamento clínico mais importante do caso: a fobia de Hans não cedeu por dessensibilização, nem por sugestão, nem por treino comportamental. Cedeu por elaboração, porque o menino pôde compreender e integrar os conflitos que o sintoma cifrava. E o que mais me convence de que a transformação foi autêntica, e não uma supressão de superfície, é o destino posterior de Herbert Graf: não apenas a fobia se foi, como ele se tornou um adulto saudável e bem-adaptado. Quando o sintoma é elaborado em vez de combatido, o que se resolve não é só o sintoma; é o conflito que o sustentava.

O papel do pai nesse processo merece nota, e merece talvez uma ressalva da minha parte. Seguindo Freud, ele passou a responder honestamente e de modo adequado à idade às perguntas de Hans sobre sexo e diferença anatômica. Essas conversas permitiram que o menino elaborasse aos poucos a percepção da diferença sexual e a angústia de perder o "faz-pipi". Reconheço o valor disso. Ao mesmo tempo, confesso uma reserva: há algo de vertiginoso num pai que é, simultaneamente, objeto da hostilidade edípica do filho e o analista encarregado de interpretá-la. Que tenha funcionado é notável; que seja recomendável, tenho minhas dúvidas. Mas talvez seja precisamente essa anomalia que tornou o caso tão instrutivo. Freud aprendeu com ele o que um setting mais ortodoxo talvez não lhe mostrasse.

O sintoma deixa de ser, como na fase da hipnose e da ab-reação, um distúrbio a ser removido, e passa a ser uma via de acesso ao inconsciente e um ponto de apoio para a constituição do sujeito, desde que acolhido pela livre associação e elaborado na transferência. Hans recorda seus desejos pelas fantasias, repete seus conflitos pelo sintoma e elabora seus afetos pela fala. Os três tempos não se sucedem em fila; eles se entrelaçam, e é do entrelaçamento que nasce a cura.

Os conceitos de recordar, repetir e elaborar não ficaram parados em 1914, e me parece desonesto tratá-los como se fossem propriedade exclusiva de Freud. Penso primeiro em Melanie Klein, que expandiu a compreensão da repetição e da elaboração nas crianças articulando-as às posições esquizo-paranoide e depressiva e ao trabalho com fantasias inconscientes muito primitivas. Para Klein, a repetição no brincar não exprime apenas conflitos edípicos, como no caso Hans, mas ansiedades anteriores, ligadas a impulsos agressivos e a experiências de fragmentação; e a elaboração não é só resolução do Édipo, mas integração da agressividade e reparação, na fantasia, dos objetos internos danificados. Confesso que essa ênfase no que antecede o Édipo me parece, em certos casos, mais fiel à clínica de crianças muito pequenas do que o próprio Hans, embora Hans, com seu sonho de girafas e suas brincadeiras de morder, já dê a ver algo dessa agressividade arcaica.

Winnicott, por seu lado, me ajuda a pensar onde tudo isso acontece. Seu conceito de espaço potencial, ou espaço transicional, essa região intermediária entre a realidade interna e a externa, descreve o lugar em que a criança brinca, repete experiências difíceis em condições de segurança e gradualmente as elabora. É a ideia do espaço terapêutico como um playground protegido, em que a repetição pode ocorrer sem perigo e, ocorrendo, transformar-se. Quando releio as brincadeiras de Hans, o "ser cavalo", o cuidar dos filhos imaginários, é difícil não pensar que ele estava fazendo exatamente isso: usando o brincar como espaço onde o intolerável se torna manejável.

Bion acrescenta algo sobre o analista que me parece indispensável. Sua noção de capacidade de rêverie descreve o trabalho de conter e metabolizar as experiências emocionais que o paciente não consegue processar sozinho, transformar o que ele chama de elementos beta, impressões sensoriais brutas, em elementos alfa, experiências emocionais pensáveis. O analista como continente do que ainda não pôde ser elaborado: essa imagem me parece especialmente preciosa nos casos em que um trauma precoce comprometeu a própria capacidade de simbolizar. No caso de Hans, esse continente foi, de modo improvisado e imperfeito, o par pai-Freud.

E há Lacan, que releu os três conceitos à luz de sua teoria do significante e da ordem simbólica. Para ele, a repetição liga-se à inscrição do sujeito na ordem simbólica e na relação com o Outro; e a elaboração não é apenas integração do recalcado, mas reconfiguração da posição do sujeito diante do desejo e do gozo. Não me alongo nessa releitura, que mereceria um ensaio só seu, e em relação à qual mantenho a distância prudente de quem a estuda sem dela ser discípulo. Registro-a porque ela mostra, mais que as outras, o quanto os conceitos freudianos seguem sendo matéria viva, e não relíquia. O que quero dizer com esse breve percurso é simples: recordar, repetir e elaborar não permaneceram estáticos. Cada geração os reabriu, e é dessa reabertura contínua que vive a psicanálise. Não há nisso traição a Freud; há, ao contrário, a forma mais fiel de lealdade a um pensamento que sempre se quis em movimento.

Resta a pergunta que mais me incomoda, e que não vou fingir que tem resposta tranquila: o que acontece com recordar, repetir e elaborar na clínica de hoje? O primeiro desafio é a pressão por tratamentos breves, focados em sintomas e com resultados mensuráveis. A elaboração, como Freud a concebe, pede tempo e paciência; desenvolve-se devagar, por confrontações repetidas com o recalcado, numa temporalidade estendida e não linear que entra em choque direto com a expectativa contemporânea de eficiência. Não tenho uma solução elegante para essa tensão. Inclino-me para a posição de quem defende abertamente a necessidade de espaços que resistam à aceleração geral da vida: parece-me que, justamente numa cultura que idolatra a velocidade, a lentidão da elaboração analítica é menos um defeito a corrigir do que um contraponto a preservar. Há coisas que não se apressam sem se perder.

O segundo desafio é o diálogo com a neurociência, a teoria do apego e a psicologia do desenvolvimento. Essas áreas muitas vezes confirmam intuições psicanalíticas, o peso das experiências precoces, a existência de processos mentais inconscientes, mas trazem modelos e vocabulários que nem sempre encaixam com facilidade nos da psicanálise. Acho um erro tanto a recusa defensiva quanto a adesão acrítica. Prefiro as pontes: o conceito de memória implícita, da neurociência cognitiva, oferece um correlato neurobiológico bastante sugestivo para aquilo que Freud descrevia como o que se repete em vez de se recordar; e a teoria do apego ajuda a pensar como padrões relacionais precoces se internalizam e se reeditam depois, inclusive na transferência. São linguagens diferentes que, por caminhos diferentes, às vezes apontam para o mesmo lugar.

O terceiro me toca de perto, porque o caso Hans está datado de um modo que não se pode ignorar. Ele nasceu de uma família patriarcal vienense e de normas sobre sexualidade e autoridade que já não são as de hoje. Seria ingênuo aplicar o triângulo pai-mãe-filho clássico como se fosse uma lei natural. A clínica infantil contemporânea tem reconhecido configurações edípicas mais flexíveis e diversas, adaptando-se ao divórcio, à homoparentalidade, a tantos arranjos que a Viena de 1909 não imaginava. E aqui sou levado a uma convicção que organiza, no fundo, todo este ensaio: o que importa no Édipo não é a forma empírica da família, mas a função: a inscrição da diferença e da lei, o modo como a criança se separa do desejo materno e se constitui como sujeito. Essa função pode se cumprir em arranjos muito diversos do de Hans, e é por isso que o caso, datado como é, continua a falar.

Nenhum desses desafios diminui a relevância dos três conceitos. Eles pedem, sim, um olhar contextualizado, que preserve o essencial enquanto responde ao que mudou. E talvez seja exatamente nessa plasticidade que resida a vitalidade de recordar, repetir e elaborar: na capacidade de continuar dizendo algo verdadeiro sobre o sofrimento humano mesmo quando o mundo em torno se transforma. O pequeno Hans tinha medo de cavalos numa cidade que ainda andava a cavalo. Os cavalos se foram das ruas; o medo, o desejo e a difícil arte de elaborá-los, esses ficaram. E é a eles, no fim das contas, que continuo a escutar.

Leonardo de Carvalho e Mello

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